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SpaceX Protocolou o Maior IPO da História e Revelou 18.712 BTC em Tesouraria — O Que Isso Muda Para o Mercado de Cripto

21 de maio de 2026 · Na noite de quarta-feira, a SpaceX depositou seu S-1 na Securities and Exchange Commission — o documento que abre formalmente o processo de abertura de capital da empresa. A manchete sobre o maior IPO da história (avaliação de $1,75 a $2 trilhões, captação de até $75 bilhões, superando o recorde da Saudi Aramco de $29 bilhões em 2019) durou poucas horas até que o mercado de cripto encontrou o dado que mais importa para o setor: a SpaceX revelou pela primeira vez que detém 18.712 Bitcoin — mais que o dobro dos 8.285 BTC que os analistas on-chain estimavam com base em endereços rastreados. O preço médio de compra foi de $35.320 por coin. A posição não se moveu desde o fim de 2024. Ao preço atual de $77.000, o BTC vale $1,45 bilhão para a SpaceX — e em 22 dias, quando a empresa estrear na Nasdaq sob o ticker SPCX, essa posição vai para o balanço público de uma das dez maiores empresas do mundo.

Tempo de leitura: ~7 min

Bitcoin em tesouraria

18.712 BTC

$1,45B ao preço atual · custo médio de $35.320 · mais que o dobro do estimado on-chain · posição inalterada desde 2024

Avaliação buscada no IPO

$1,75–$2T

captação de até $75B · maior IPO da história · Saudi Aramco tinha o recorde com $29,4B em 2019

Lucro não realizado no BTC

+$789M

custo total de $661M · valor atual ~$1,45B · ganho de 119% sobre o custo · ganho realizado de $955M em 2024

Data do IPO

12 de junho

Nasdaq · ticker SPCX · roadshow semana de 8/jun · precificação em 11/jun · bancos: Goldman, Morgan Stanley, JPMorgan, BofA, Citi


O que o S-1 revelou — os números e o que estava escondido

O documento S-1 da SpaceX, depositado na SEC na noite de quarta-feira, é o prospecto de abertura de capital — o equivalente americano do prospecto definitivo de uma oferta pública inicial. Ele contém demonstrações financeiras auditadas, estrutura de governança, planos de negócio e, crucialmente, todos os ativos materiais da empresa. Para o mercado de cripto, a seção mais relevante foi simples e direta: como em 31 de março de 2026, a SpaceX detinha 18.712 Bitcoin com custo total de $661 milhões, implicando preço médio de compra de aproximadamente $35.320 por coin.

O número surpreendeu o mercado por uma razão técnica: as ferramentas de análise on-chain — incluindo a Arkham Intelligence e o agregador Bitcoin Treasuries — haviam atribuído à SpaceX cerca de 8.285 BTC com base em endereços rastreados na blockchain. A diferença entre os 8.285 BTC estimados e os 18.712 BTC reais existe porque a empresa usa custódia de terceiros com endereços não identificados publicamente. O S-1 descreve isso claramente: “A Companhia tem propriedade e controle sobre seus ativos digitais, que consistem de bitcoin, e utiliza, e espera continuar a utilizar, custodiantes terceirizados.” O arquivo não nomeia quais custodiantes. A Coinbase Prime havia sido identificada como um deles por dados on-chain, mas claramente não é o único.

O filing também revelou os resultados financeiros do Q1 2026: receita consolidada de $4,69 bilhões, perda operacional de $1,94 bilhão e EBITDA ajustado de $1,13 bilhão. O segmento de IA (xAI, Grok, X), adquirido em fevereiro de 2026, ainda está em modo de investimento pesado com $7,7 bilhões em capex no trimestre. O Starlink permanece o negócio lucrativo com margem EBITDA de 63%. E a posição em Bitcoin registrou uma perda não realizada de $112 milhões em 2025 — após um ganho de $955 milhões em 2024 — refletindo a queda do BTC de $87.000 no início do ano para os atuais $77.000.

Um detalhe que o S-1 não menciona: o motivo pelo qual a SpaceX comprou Bitcoin, a estratégia de gestão da posição ou se há planos de adquirir mais. O filing simplesmente descreve a posição como existente. Isso contrasta fortemente com a Strategy (ex-MicroStrategy), que dedica seções inteiras dos seus relatórios explicando a tese de Bitcoin como reserva de valor. Para a SpaceX, o BTC aparece como uma linha do balanço — sem narrativa, sem estratégia declarada. Isso é tanto uma informação quanto uma ausência de informação.


A história do Bitcoin da SpaceX — de 28.000 para 18.712

A relação da SpaceX com o Bitcoin começa em 2021, quando a empresa acumulou aproximadamente 25.724 BTC durante o pico do bull market. No pico, em alguns momentos de 2021 e início de 2022, a posição chegou perto de 28.000 BTC. O que veio depois foi uma das histórias mais comentadas do bear market de 2022.

Em julho de 2023, o Wall Street Journal reportou que a SpaceX havia vendido todo o seu Bitcoin — uma notícia que derrubou o BTC abaixo de $25.000 e liquidou mais de $386 milhões em posições de futuros em questão de horas. O que o WSJ não sabia — e o S-1 agora confirma — é que a empresa havia reduzido mas não zerado a posição. Ela saiu de aproximadamente 28.000 BTC para 18.712 BTC entre 2022 e 2024, uma redução de cerca de 33%, não 100%. A posição menor permaneceu em custódia, sem aparecer nos endereços rastreados publicamente, por quase três anos.

O fato de a SpaceX não ter vendido o restante da posição em 2022 — quando registrou uma perda operacional de bilhões e estava absorvendo os custos da aceleração do programa Starship — é o dado mais revelador do filing. Analistas da Backpack Research observaram que manter uma reserva volátil durante perdas, em vez de vendê-la para melhorar o balanço, sinaliza que a liderança da SpaceX vê o Bitcoin como reserva estratégica de longo prazo, não como posição especulativa de curto prazo. Nenhuma linha do S-1 diz isso explicitamente. Mas o comportamento ao longo de três anos de crise diz.


O efeito FASB — como a posição vai aparecer no balanço público

Existe uma mudança regulatória contábil que torna o IPO da SpaceX diferente de qualquer empresa de capital aberto que tenha adquirido Bitcoin antes de 2025. A FASB — Financial Accounting Standards Board, o órgão americano que define as normas contábeis — publicou a ASU 2023-08, uma nova regra que entrou em vigor para exercícios fiscais iniciados após 15 de dezembro de 2024. Essa regra exige que empresas listadas avaliem suas posições em criptoativos a valor justo de mercado a cada trimestre, e que o resultado vá diretamente para o lucro líquido.

Traduzindo para o impacto concreto na SpaceX: se o Bitcoin cair 20% em um trimestre após o IPO, a empresa vai reportar uma perda não realizada de cerca de $290 milhões naquele trimestre — diretamente no resultado, não escondida em “outros resultados abrangentes”. Se o BTC subir 30%, a empresa vai reportar um ganho de $435 milhões. Isso vai introduzir uma volatilidade no resultado trimestral da SpaceX que não tem nada a ver com foguetes, Starlink ou IA. Analistas do mercado já estão alertando que investidores institucionais que avaliam SPCX com base em múltiplos de EBITDA precisam filtrar manualmente o efeito do Bitcoin para entender o resultado operacional real.

A Strategy — maior detentora corporativa de Bitcoin, com 843.738 BTC — já sentiu esse efeito em toda sua magnitude. No Q1 2026, a empresa reportou uma perda líquida de $12,54 bilhões, quase inteiramente composta por uma baixa contábil não realizada sobre sua posição em BTC, enquanto o Bitcoin caiu de $87.000 para $68.000. A Strategy existe para isso — sua tese é explicitamente acumular Bitcoin. Para a SpaceX, cujo core business é infraestrutura espacial e IA, ter $1,45 bilhão em Bitcoin no balanço vai criar um novo tipo de questionamento de analistas a cada resultado trimestral.

A posição de $1,45 bilhão em BTC representa cerca de 0,08% da avaliação de $1,75 trilhão buscada pela SpaceX. Para efeito de comparação, a Strategy tem praticamente 100% do seu valor de mercado indexado ao Bitcoin. Para a SpaceX, o BTC é menos de 0,1% do valor da empresa — mas vai gerar mais manchetes e perguntas de analistas do que qualquer outra linha do balanço porque os movimentos do preço do Bitcoin são cobertos diariamente pela mídia financeira.


SpaceX vs. os maiores detentores corporativos de Bitcoin do mundo

Ranking dos maiores detentores corporativos de Bitcoin — maio de 2026

# Empresa BTC detidos Contexto
1 Strategy (ex-MicroStrategy) 843.738 BTC BTC é a tese central da empresa. Acumulação contínua semanal desde 2020
2–3 Governos (EUA, Butão, El Salvador) ~207.000+ BTC Reservas soberanas e apreensões judiciais
~4–10 Mineradoras (Marathon, Riot, Hut 8…) 20.000–50.000 BTC cada Acumulação via mineração — core business ligado ao BTC
11 ★ SpaceX (SPCX) 18.712 BTC · $1,45B Posição estratégica · core business é espaço e IA · sem declaração de estratégia BTC
~14 Tesla 11.509 BTC · $886M Vendeu ~75% da posição em 2022 · manteve o restante sem movimentação
~20+ Coinbase, Block Inc., Square 1.000–10.000 BTC cada Posições de balanço de empresas nativas de cripto ou tech

O contraste mais revelador é com a Tesla. Ambas as empresas de Elon Musk compraram Bitcoin em 2021 e reduziram a posição durante o bear market de 2022. A Tesla vendeu cerca de 75% da sua posição e agora detém 11.509 BTC. A SpaceX vendeu cerca de 33% e manteve 18.712 BTC — mesmo com prejuízo operacional maior do que a Tesla naquele período. São duas empresas do mesmo fundador com estratégias de tesouraria completamente diferentes para o mesmo ativo.

⚠️ Aviso importante: os dados de posição acima são baseados em disclosures públicos e estimativas de mercado. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. O IPO da SpaceX e as posições corporativas em Bitcoin têm caráter exclusivamente informativo nesta newsletter. Criptoativos e ações envolvem alto risco de perda.


O que o IPO da SpaceX muda para o mercado de cripto

O efeito mais imediato é de narrativa. Quando a maior empresa privada do mundo abre capital e seu balanço inclui $1,45 bilhão em Bitcoin como ativo estratégico — sem pedir desculpas, sem narrativa defensiva, sem qualificação —, isso normaliza a tesouraria corporativa em BTC para um público de investidores institucionais que nunca havia precisado avaliar isso antes. Fundos de pensão, seguradoras e gestoras que vão comprar SPCX como parte de portfólios diversificados vão automaticamente ganhar exposição indireta ao Bitcoin. Não porque escolheram — mas porque faz parte do balanço de uma das maiores empresas do mundo.

O segundo efeito é sobre o precedente para outros IPOs. A fila de empresas aguardando para abrir capital em 2026 inclui Circle, Kraken, Zerohash e outras empresas nativas de cripto. Mas mais relevante para a narrativa da tesouraria corporativa são as empresas de tecnologia que têm BTC no balanço e ainda não abriram capital. Se a SpaceX passa pelo processo de IPO com $1,45 bilhão em Bitcoin sem enfrentar resistência dos underwriters ou dos reguladores, isso sinaliza que a posição é aceitável para o processo de abertura de capital americano.

O terceiro efeito é sobre o preço do BTC no curto prazo. A SpaceX não está comprando Bitcoin — está revelando o que já tem. Por isso, o impacto direto no preço spot é limitado. Mas o impacto indireto pode ser significativo: cada cobertura do IPO da SpaceX vai mencionar a posição de $1,45 bilhão em BTC, introduzindo o ativo a um novo conjunto de leitores do Financial Times, Wall Street Journal e Bloomberg que não acompanham cripto diariamente. É publicidade orgânica para o Bitcoin como ativo de balanço corporativo no momento em que o CLARITY Act está avançando no Senado e os ETFs institucionais estão em expansão.


O que isso significa para o investidor brasileiro

O IPO da SpaceX tem três implicações práticas para o investidor brasileiro.

A primeira é de acesso ao ativo. O ticker SPCX vai estar disponível na Nasdaq a partir de 12 de junho. Investidores brasileiros com conta em corretoras que permitem compra de ações americanas (XP, BTG, Avenue, Interactive Brokers) poderão comprar SPCX — e terão, indiretamente, exposição a uma empresa que detém $1,45 bilhão em BTC ao lado de negócios de foguetes, satélites e IA. É uma forma regulada e acessível de ter Bitcoin no portfólio para quem prefere não lidar com custódia direta de cripto.

A segunda é de contexto de mercado. O IPO da SpaceX vai dominar as manchetes financeiras globais na semana de 9 a 13 de junho. Em episódios similares de grande IPO de tech — Airbnb, Coinbase, Rivian — o mercado cripto tendeu a se correlacionar positivamente com o entusiasmo gerado pelo evento, especialmente quando a empresa tem vínculos com o ecossistema. O SPCX tem um vínculo direto: $1,45 bilhão em BTC no balanço. Monitorar o roadshow e o comportamento do mercado nessa janela pode ser relevante para quem já está posicionado em cripto.

A terceira é de narrativa de longo prazo. O Brasil é o quinto maior mercado de cripto do mundo por número de usuários. Mas a adoção corporativa local ainda é incipiente — poucas empresas brasileiras de capital aberto têm BTC no balanço. Se o padrão americano de tesouraria corporativa em Bitcoin continuar se consolidando com o IPO da SpaceX, a pressão sobre empresas brasileiras de tecnologia e finanças para justificar por que não têm nenhuma alocação em BTC vai aumentar. O movimento de fora para dentro do Brasil tende a acontecer com 12 a 24 meses de defasagem.


Perguntas Frequentes

O que é um S-1 e por que ele revela a posição em Bitcoin da SpaceX?

O S-1 é o formulário de registro de abertura de capital exigido pela SEC para empresas que querem listar ações nas bolsas americanas. Ele funciona como um prospecto detalhado: inclui demonstrações financeiras auditadas, estrutura de propriedade, descrição do negócio, fatores de risco e todos os ativos materiais. Como Bitcoin passou a ser tratado como ativo material sob as novas regras da FASB, ele precisa ser declarado no S-1 com precisão — o que forçou a SpaceX a revelar 18.712 BTC, o número real, em vez das estimativas on-chain que circulavam antes.

Por que Elon Musk disse que “a maioria das criptos são golpes” enquanto a SpaceX tem $1,45B em Bitcoin?

Em 30 de abril de 2026, durante depoimento em processo judicial contra a OpenAI em Oakland, Musk foi questionado sobre os planos da OpenAI de captar recursos via ICO em 2018. Em resposta, disse que “a maioria” das criptomoedas são golpes. A declaração gerou tensão com a tesouraria de $1,45 bilhão em BTC da SpaceX — mas não necessariamente uma contradição: Musk não disse que o Bitcoin especificamente é um golpe, e historicamente tem sido mais favorável ao BTC e ao DOGE do que ao mercado de altcoins em geral. O contraste entre a declaração e a posição corporativa é real e foi amplamente notado, mas o S-1 não faz nenhuma referência ao depoimento.

O que é a regra FASB ASU 2023-08 e por que ela importa para empresas com Bitcoin?

Antes da ASU 2023-08, empresas que detinham Bitcoin precisavam registrá-lo pelo custo histórico — e só podiam reconhecer perdas quando o preço caía abaixo do custo, nunca ganhos enquanto o ativo não fosse vendido. Isso criava uma distorção: o balanço mostrava um BTC comprado a $35.000 pelo seu preço de custo mesmo quando valia $77.000. A nova regra exige marcação a mercado a cada trimestre, com ganhos e perdas indo diretamente ao resultado. Para a SpaceX, isso significa que cada relatório trimestral vai incluir um item de linha de “ganho/perda em Bitcoin” que pode ser de centenas de milhões de dólares em qualquer direção — independentemente de qualquer venda.

O IPO da SpaceX vai empurrar o preço do Bitcoin para cima?

O IPO em si não cria demanda direta por Bitcoin — a SpaceX está revelando o que já possui, não comprando mais. O efeito sobre o preço é indireto e de narrativa: cada vez que SPCX é coberta pela mídia financeira, o Bitcoin de $1,45 bilhão no balanço vai ser mencionado, alcançando audiências que não acompanham cripto diretamente. Além disso, fundos que compram SPCX ganham exposição indireta ao BTC sem fazer nenhuma escolha explícita sobre cripto. O impacto real no preço depende de quanto dessa narrativa se converte em demanda adicional por ETFs de Bitcoin ou por BTC direto — algo que só o fluxo pós-IPO vai revelar.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e opinativo, não constituindo recomendação de investimento, oferta, solicitação ou garantia de rentabilidade em relação a bitcoin, criptoativos ou quaisquer outros ativos. As informações, análises, opiniões e projeções aqui contidas têm finalidade meramente informativa e não substituem avaliação própria, independente e criteriosa por parte do leitor. Desempenhos passados não representam garantia de resultados futuros. Assim, toda decisão tomada com base neste conteúdo é de responsabilidade exclusiva do leitor, não podendo a Formadores de Mercado ser responsabilizada por eventuais perdas, danos ou prejuízos decorrentes de seu uso ou interpretação.