25 de maio de 2026 · Existe uma lógica que qualquer dono de imóvel no Brasil conhece bem: você não vende a casa para pagar uma viagem. Você faz um financiamento com o imóvel como garantia, pega o dinheiro e mantém o bem. Com Bitcoin, a lógica deveria ser a mesma — e segundo um novo relatório da Ledn publicado esta semana, 88% dos detentores de cripto entrevistados concordam com essa ideia e diriam que topam usar o BTC como garantia de empréstimo. O problema é que apenas 14% já fizeram isso. Esse gap de 74 pontos percentuais entre intenção e ação é o que a Ledn chama de “o trilhão de dólares escondido no Bitcoin” — um mercado que hoje vale $3 bilhões e que a empresa projeta chegar a $1 trilhão em uma década. O que está bloqueando essa adoção, o que está mudando para destravar esse capital, e o que o investidor brasileiro precisa saber sobre esse produto.
Tempo de leitura: ~6 min
Neste artigo
- O gap de 74 pontos — por que 88% topam mas só 14% fazem
- Como funciona um empréstimo com Bitcoin como garantia
- O trauma de 2022 — por que Celsius e BlockFi ainda assombram o setor
- O que está mudando — a infraestrutura de confiança tomando forma
- O que isso significa para o investidor brasileiro
- Perguntas frequentes
|
Mercado hoje $3 bilhões empréstimos com BTC como garantia · consumidor · crescimento de 300x necessário para chegar a $1T |
Projeção Ledn (10 anos) $1 trilhão mercado consumidor de empréstimo com BTC · superaria o mercado total de cripto-crédito de $73,6B de 2025 |
|
Gap de adoção 88% vs 14% 88% dos holders topam usar BTC como colateral · apenas 14% já fizeram · gap de 74 pontos percentuais |
Primeiro ABS investment-grade $200M título lastreado em BTC · rating BBB- pela S&P Global · emitido pela Ledn em fevereiro de 2026 · bonds negociando 5% mais apertado desde emissão |
O gap de 74 pontos — por que 88% topam mas só 14% fazem
O relatório da Ledn foi elaborado com a firma de pesquisa de consumidores Protocol Theory, que entrevistou 1.244 detentores de criptomoedas nos EUA e na Austrália entre fevereiro e março de 2026. O objetivo era entender a diferença entre quem considera usar BTC como garantia e quem realmente faz isso — e os resultados mostram um mercado em estado de paralisia por confiança.
88% dos entrevistados disseram que considerariam usar um produto de empréstimo ou crédito lastreado em cripto. Apenas 14% já usaram. Isso não é falta de interesse — é falta de confiança na infraestrutura. Quando os pesquisadores perguntaram o que impede a adoção, as três respostas mais frequentes foram: volatilidade do preço do Bitcoin (e o risco de liquidação forçada quando o preço cai), incerteza regulatória e risco de plataforma.
O dado que revela a lógica dos 14% que já usam é igualmente interessante. Segundo o relatório, o comportamento desse grupo se assemelha ao de pessoas ricas que usam financiamentos lastreados em ações ou imóveis para acessar liquidez sem vender ativos de longo prazo. 72% dos entrevistados concordam que empréstimos com BTC são uma forma de acessar dinheiro sem desfazer uma posição de longo prazo. A lógica está clara — o que falta é a confiança no veículo.
Mauricio Di Bartolomeo, co-fundador da Ledn, resumiu assim: “O lado da demanda está resolvido. O que ainda precisa se desenvolver é a infraestrutura de confiança que dá aos tomadores a segurança para agir.” É uma frase que captura bem a dinâmica: o produto faz sentido para as pessoas, mas o setor ainda não construiu a credibilidade necessária para que elas realmente usem.
Um dado regional interessante: os australianos entrevistados eram mais propensos do que os americanos a usar empréstimos com cripto como parte de um planejamento financeiro estruturado e a comparar condições entre diferentes plataformas. Isso reflete um mercado local mais fragmentado na Austrália, onde nenhuma plataforma domina — e onde os consumidores são obrigados a pesquisar mais. No Brasil, o cenário é parecido: várias plataformas oferecem o produto, mas a educação financeira sobre o uso de cripto como colateral ainda é incipiente.
Como funciona um empréstimo com Bitcoin como garantia
O mecanismo é mais simples do que parece. O tomador deposita Bitcoin em uma plataforma de empréstimo como garantia — da mesma forma que deposita um imóvel como garantia em um financiamento bancário. Em troca, recebe um empréstimo em dólares, reais ou stablecoins, tipicamente entre 30% e 60% do valor do BTC depositado (chamado LTV — Loan-to-Value). O tomador paga juros mensais e, ao fim do prazo, devolve o principal para recuperar o BTC.
Como funciona na prática — o ciclo de um empréstimo com BTC
| Etapa | O que acontece | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| 1. Depósito | Tomador envia BTC para a plataforma. O BTC fica bloqueado como colateral | O BTC sai da sua custódia. Risco de contraparte entra aqui — a plataforma precisa ser confiável |
| 2. Empréstimo | Plataforma libera entre 30% e 60% do valor do BTC em dólares, reais ou stablecoins (LTV) | Quanto maior o LTV, maior o risco de liquidação se o preço do BTC cair |
| 3. Pagamento de juros | Tomador paga juros mensais sobre o valor emprestado. Taxas variam de 4% a 14% ao ano | Juros em dólar ou stablecoin · o BTC permanece bloqueado durante todo o prazo |
| ⚠️ Margem call | Se o preço do BTC cair abaixo de um threshold, a plataforma exige mais colateral ou vende o BTC para cobrir o empréstimo | Principal risco do produto. BTC pode ser liquidado no pior momento — quando o preço já caiu |
| 4. Quitação | Tomador devolve o principal. Plataforma libera o BTC bloqueado | Se o BTC valorizou durante o período, o tomador se beneficiou do upside sem ter vendido |
O caso de uso mais comum é o de quem precisa de liquidez para uma despesa grande — reforma, viagem, emergência médica, oportunidade de negócio — mas não quer vender o BTC porque acredita que o preço vai subir. Em vez de vender 1 BTC a $77.000 e pagar imposto sobre o ganho de capital, o tomador usa esse BTC como garantia, pega $40.000 emprestado (LTV de 52%), paga a despesa, e no fim do prazo devolve os $40.000 mais juros — mantendo o BTC intacto e se beneficiando de qualquer valorização que ocorreu no período.
⚠️ Aviso importante: empréstimos com Bitcoin como garantia envolvem risco real de liquidação do colateral em caso de queda de preço. Esta newsletter tem caráter exclusivamente informativo. A Formadores de Mercado não recomenda nenhuma plataforma de empréstimo nem a tomada de crédito com criptoativos como garantia. Consulte um profissional de finanças antes de usar qualquer produto de crédito.
O trauma de 2022 — por que Celsius e BlockFi ainda assombram o setor
Para entender por que apenas 14% dos holders usam empréstimos com BTC apesar do interesse de 88%, é preciso voltar a 2022 — o ano que destruiu a confiança no setor de cripto-crédito de uma forma que o mercado ainda não superou completamente.
Em maio de 2022, o colapso do ecossistema Terra/Luna derrubou o preço do BTC de $40.000 para $20.000 em questão de semanas. As plataformas de empréstimo cripto que haviam prometido rendimentos de 10% a 20% ao ano sobre depósitos em cripto — Celsius Network, Voyager Digital e BlockFi entre elas — não tinham liquidez suficiente para honrar os saques dos clientes. A Celsius congelou saques em junho de 2022. A Voyager pediu recuperação judicial em julho. A BlockFi seguiu em novembro. No total, bilhões de dólares em fundos de clientes foram perdidos ou ficaram presos por anos em processos de falência.
O dano à confiança foi estrutural. Não apenas os clientes que perderam dinheiro evitam o produto — qualquer pessoa que acompanhou as notícias absorveu a narrativa de que plataformas de empréstimo cripto são arriscadas e podem quebrar. Esse é o contexto que explica por que 86% dos holders que consideram usar o produto ainda não deram o passo: a memória de 2022 está viva, e as perguntas “o que acontece com meu BTC se a plataforma quebrar?” e “como sei que meu colateral está seguro?” não têm respostas evidentes para quem não pesquisa a fundo.
O que diferenciou as plataformas que sobreviveram das que faliram em 2022 foi principalmente a gestão de risco do lado do empréstimo. Celsius e similares usavam os depósitos dos clientes para fazer apostas em DeFi de alto risco. A Ledn, por contraste, opera com um modelo mais conservador: os Bitcoin depositados como colateral ficam em custódia segregada e não são usados para rendimento ou apostas especulativas. É um modelo de menor retorno mas de risco substancialmente menor — e é exatamente o que o relatório indica que os clientes querem: gestão de risco e reputação de plataforma são os critérios número um e dois na escolha de onde tomar emprestado.
O que está mudando — a infraestrutura de confiança tomando forma
Três desenvolvimentos recentes sinalizam que a infraestrutura de confiança que o mercado precisa para escalar está sendo construída — mais lentamente do que o hype de 2021 sugeria, mas de forma mais sólida do que qualquer coisa que existia antes de 2022.
O primeiro é o ABS investment-grade da Ledn. Em fevereiro de 2026, a empresa fechou um título lastreado em empréstimos com Bitcoin de $200 milhões com a tranche sênior avaliada como BBB- pela S&P Global — a primeira vez que uma agência de classificação de risco mainstream atribuiu uma nota investment-grade a um instrumento de crédito cripto. Desde a emissão, esses bonds negociaram com spread 5% mais estreito, o que significa que compradores institucionais estão precificando o risco mais favoravelmente do que no momento da emissão. A Galaxy Research descreveu isso como o crédito cripto “saindo de um nicho para uma aceitação institucional mais ampla.” É o mesmo processo que a securitização de hipotecas passou nas décadas de 1970 e 1980 — transformando um produto de nicho em infraestrutura financeira mainstream.
O segundo é a regulação. O CLARITY Act, que avança no Senado americano, inclui disposições sobre custódia de ativos digitais que criariam padrões mínimos para plataformas que guardam BTC de clientes. Com regras claras sobre segregação de custódia, requisitos de capital e divulgação de risco, parte da incerteza que mantém 86% dos holders à margem seria removida. A regulação não elimina o risco — mas transforma risco desconhecido em risco conhecido e mensurável, o que é o que investidores institucionais precisam para alocar.
O terceiro é a consolidação do setor. Das grandes plataformas que operavam em 2021, as que sobreviveram a 2022 são agora substancialmente maiores e mais conservadoras. A Ledn opera em mais de 100 países e originou mais de $10 bilhões em empréstimos desde 2018. A Galaxy Digital, que também opera nesse mercado do lado institucional, estimou o mercado total de cripto-crédito em $73,6 bilhões no pico de 2025 — um número que, apesar de parecer grande, ainda representa menos de 3% do valor de mercado total do Bitcoin. Para efeito de comparação, o mercado americano de empréstimos com garantia de ações (margin lending) representa cerca de 2% do valor total das ações listadas. O potencial de crescimento relativo é expressivo.
O modelo que está emergindo é diferente do de 2021. Em vez de plataformas promovendo rendimentos impossíveis sobre depósitos em cripto, o foco está em empréstimos com colateralização conservadora, custódia segregada e auditoria de terceiros. É um modelo mais parecido com o de um banco de custódia do que com o de um fundo especulativo — e é exatamente esse modelo que os 88% de possíveis tomadores dizem que os convenceria a usar o produto.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O Brasil é o quinto maior mercado de cripto do mundo por número de usuários — e o perfil do holder brasileiro tem características que tornam o produto de empréstimo com BTC particularmente relevante aqui.
O primeiro fator é o custo do crédito no Brasil. As taxas de juros brasileiras são historicamente entre as mais altas do mundo. Um empréstimo pessoal em banco tradicional no Brasil pode custar 30% a 60% ao ano. Um empréstimo com BTC como garantia em plataformas internacionais custa tipicamente de 6% a 14% ao ano em dólar — ainda que isso implique risco cambial para quem ganha em reais. Para um brasileiro com BTC acumulado que precisa de liquidez em reais, a comparação de custo pode ser favorável, dependendo do momento cambial e da taxa oferecida.
O segundo fator é a tributação. No Brasil, a venda de criptoativos acima de R$35.000 por mês gera imposto sobre ganho de capital de 15% a 22,5%. Para um holder com Bitcoin valorizado que precisa de dinheiro, usar o BTC como garantia de empréstimo — em vez de vender — pode ser uma forma legal de acessar liquidez sem acionar o evento tributário da venda. Isso não é evasão fiscal — é simplesmente não vender. O imposto será pago quando o BTC for eventualmente vendido, mas o holder escolhe quando isso acontece.
O terceiro fator é o surgimento de plataformas locais. Além da Ledn (que atende clientes brasileiros), exchanges brasileiras como Mercado Bitcoin e Foxbit já oferecem ou estão desenvolvendo produtos de empréstimo com cripto como colateral. À medida que a regulação do Banco Central para criptoativos avança, esses produtos devem se tornar mais estruturados e acessíveis para o investidor de varejo local.
O risco principal permanece: a liquidação forçada em quedas de preço. Um holder brasileiro que tomou emprestado $40.000 usando 1 BTC como colateral a $77.000 veria um margin call se o BTC caísse para $60.000–$65.000 — dependendo do LTV e dos termos da plataforma. Em um mercado volátil como o cripto, isso não é um cenário remoto. A regra prática do setor é: nunca tome emprestado mais do que você consegue pagar sem depender de que o BTC suba para cobrir a dívida.
Perguntas Frequentes
O que é LTV e como ele define o risco do empréstimo?
LTV significa Loan-to-Value — a razão entre o valor emprestado e o valor do colateral. Se você deposita 1 BTC a $77.000 e toma $40.000 emprestado, o LTV é 52%. Quanto maior o LTV, mais próximo o empréstimo fica do valor do colateral — e menor a margem de segurança antes de um margin call. A maioria das plataformas emite avisos quando o LTV ultrapassa 70% e liquida automaticamente parte do colateral quando ultrapassa 80–85%. Um LTV mais conservador, como 40–50%, dá mais espaço para absorver quedas de preço sem liquidação forçada.
O que é um ABS e por que o rating BBB- da Ledn é relevante?
ABS significa Asset-Backed Security — um título financeiro lastreado em um portfólio de ativos (nesse caso, empréstimos com BTC como colateral). O emitente agrupa vários empréstimos, estrutura o risco em tranches (sênior, mezanino, júnior) e vende esses títulos para investidores institucionais. O rating BBB- da S&P Global para a tranche sênior significa que a agência avalia esse instrumento como investment-grade — o nível mínimo que permite que fundos de pensão, seguradoras e outras instituições com mandato conservador o adquiram. É o mesmo processo que transformou hipotecas americanas em instrumentos negociáveis nas décadas passadas — com todas as oportunidades e riscos que isso implica.
Como garantir que o meu BTC está seguro em uma plataforma de empréstimo?
As perguntas essenciais a fazer antes de depositar BTC em qualquer plataforma: os ativos são mantidos em custódia segregada (separados dos ativos operacionais da empresa)? A plataforma tem auditoria de terceiros das suas reservas? Quem é o custodiante (Coinbase Prime, BitGo, Anchorage etc.)? O que acontece com o meu BTC em caso de falência da plataforma — ele está protegido como ativo segregado ou entra na massa falida? A resposta a essa última pergunta é o que determinou se os clientes da Celsius recuperaram ou não seus fundos em 2022.
A projeção de $1 trilhão da Ledn é realista?
É um número ambicioso mas não implausível dentro de um horizonte de 10 anos, considerando duas premissas: que o valor de mercado do Bitcoin continue crescendo (atualmente $1,54 trilhão) e que a adoção de empréstimos com BTC acompanhe o nível de uso de instrumentos equivalentes em outros mercados de ativos. O mercado americano de margin lending em ações representa cerca de 2% do valor total do mercado acionário. Se o BTC crescer para $3–$5 trilhões de market cap — o que implicaria preços entre $150.000 e $250.000 — e o mercado de empréstimos atingir 20% do market cap (similar ao imobiliário), $1 trilhão seria possível. Mas isso requer que a infraestrutura de confiança se construa em escala — custódia, regulação e reputação de plataforma — o que é o verdadeiro desafio.
✦ Diagnóstico Gratuito ✦
Qual é o seu perfil de
investidor em cripto?
88% dos holders de Bitcoin topam usar o BTC como garantia de empréstimo — mas só 14% já fizeram. Você sabe qual é o seu perfil de risco antes de usar esse tipo de produto? Descubra em menos de 3 minutos.
Diagnóstico gratuito →Leva menos de 3 minutos · 100% gratuito