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O CLARITY Act Proíbe Yield Passivo — E Isso Pode Criar um Mercado de Bilhões Que Ninguém Está Vendo

26 de maio de 2026 · Existe uma frase na Seção 404 do CLARITY Act que quase ninguém está discutindo fora dos círculos de compliance — mas que pode mudar completamente como o mercado cripto gera e distribui rendimento. A frase proíbe que Digital Asset Service Providers e seus afiliados ofereçam yield simplesmente como função de guardar um ativo digital. Em português direto: acabou o modelo de “guarda a stablecoin e recebe 5% ao ano de forma passiva”. O USDC Rewards da Coinbase, os programas de yield passivo de exchanges como Binance e Kraken, e qualquer produto que pague rendimento por simplesmente manter um ativo estacionado — tudo isso está na mira da regulação. Para os usuários, a notícia parece ruim. Para a indústria, especialistas dizem que a restrição pode criar um mercado inteiramente novo: yield-as-a-service — uma infraestrutura de rendimento ativo, orientado por compliance e potencialmente impulsionado por IA, que pode valer bilhões. É a mesma lógica que transformou as restrições ao cartão de crédito nos anos 2000 em um mercado de rewards programs de trilhões de dólares. A restrição cria o produto.

Tempo de leitura: ~7 min

O que o CLARITY Act proíbe

Yield passivo

Seção 404 · proíbe rendimento por simplesmente guardar um ativo digital · afeta USDC Rewards, programas de yield passivo de exchanges

O que o CLARITY Act permite

Yield por uso

rewards vinculados a transações, volume de uso, serviços ativos · yield gerado por atividade, não por custódia passiva

Mercado de stablecoins hoje

$316B

capitalização total de stablecoins · 90% em USDT e USDC · base sobre a qual o yield-as-a-service vai operar

Timeline CLARITY Act

Jul–Ago 2026

janela otimista para voto no plenário · reguladores teriam 12 meses para implementar após sanção · impacto real: 2027


O que a Seção 404 diz — e o que ela proíbe exatamente

O CLARITY Act é um projeto de lei de 309 páginas — e a maioria das discussões públicas foca nas partes mais vistosas: quem regula o quê, quais ativos são commodities, como funciona o processo de descentralização para sair da SEC. A Seção 404 não aparece nas manchetes. Mas é ela que determina como o ecossistema de stablecoins e ativos digitais vai funcionar na prática para quem usa esses produtos para gerar renda.

A seção proíbe que Digital Asset Service Providers — exchanges, wallets, plataformas de custódia e seus afiliados — ofereçam ou promovam qualquer forma de rendimento que seja uma função exclusiva de guardar um ativo digital. A linguagem técnica é precisa: o yield não pode ser derivado simplesmente da custódia passiva do ativo. Ele precisa ser vinculado a alguma forma de atividade — uma transação, um serviço, um uso produtivo do capital.

A lógica regulatória por trás da proibição é distinguir stablecoins de instrumentos financeiros que pagam juros — como depósitos bancários ou títulos. Se uma stablecoin paga rendimento por simplesmente ser mantida, ela se comporta como um depósito bancário ou um título de renda fixa. E se ela se comporta como um depósito ou título, deveria ser regulada como tal — com reservas, proteção ao consumidor, seguro de depósito, supervisão bancária. A Seção 404 resolve esse problema pela raiz: em vez de tentar regular o yield passivo de stablecoin como se fosse um depósito bancário, simplesmente proíbe o modelo.

O que a seção não proíbe é igualmente importante. Recompensas vinculadas ao uso de uma stablecoin — volume de transações, frequência de pagamentos, integração com protocolos específicos — continuam permitidas. A distinção é entre “recebo 5% ao ano por não fazer nada” (proibido) e “recebo recompensas por usar ativamente o ativo em transações” (permitido). É uma fronteira que ainda vai gerar debate regulatório sobre onde exatamente a linha é traçada — mas o princípio está claro.

A Coinbase foi um dos atores que mais pressionou pela retirada de qualquer restrição a yield em stablecoins durante o processo legislativo. A empresa chegou a retirar o apoio ao CLARITY Act temporariamente antes de retornar, após a linguagem da Seção 404 ser ajustada para permitir recompensas vinculadas a transações. O USDC Rewards atual da Coinbase — que paga rendimento por simplesmente manter USDC na plataforma — está diretamente na mira da proibição da Seção 404 na sua forma atual.


O fim do “hold-to-earn” — quais produtos deixam de existir

Para entender o impacto prático da Seção 404, é útil mapear quais produtos existentes são afetados. O mercado de yield passivo em cripto cresceu exponencialmente nos últimos anos, à medida que exchanges e plataformas perceberam que oferecer rendimento sobre stablecoins era uma forma poderosa de reter usuários e ativos sob custódia.

Produtos de yield passivo em cripto — o que muda com a Seção 404

Produto / Plataforma Modelo atual Status após Seção 404
Coinbase USDC Rewards 4,7% ao ano por manter USDC na Coinbase · yield automático sem nenhuma ação do usuário 🔴 Proibido — yield passivo por custódia
Binance USDT Savings Rendimento de 3–8% ao ano sobre USDT em “poupança flexível” · sem lock-up obrigatório 🔴 Proibido — estrutura passiva de custódia e yield
Kraken Stablecoin Staking Yield de 4–6% sobre USDC/USDT depositados · modelo de empréstimo via a exchange 🔴 Proibido — yield derivado de custódia, não de uso
Aave / DeFi lending Yield gerado por emprestar ativos a tomadores via protocolo descentralizado · rendimento variável ⚖️ Zona cinza — protocolos descentralizados têm isenção parcial via Seção 409
Cashback em transações (Stripe, Visa) Recompensas em stablecoin por cada pagamento realizado · yield vinculado a transação ✅ Permitido — yield gerado por atividade de uso
Yield por liquidez em AMM (Uniswap, Orca) Provedores de liquidez ganham fees de trading por disponibilizar ativos no pool ✅ Permitido — yield vinculado a serviço ativo de liquidez

O padrão que emerge da tabela é claro: o que a Seção 404 elimina é especificamente o modelo onde uma exchange ou custódia centralizada paga yield sem que o usuário faça nada além de manter o ativo na plataforma. O que permanece — e que a seção explicitamente protege — é o yield gerado por atividade real: transações, provimento de liquidez, empréstimo ativo.

Para o usuário médio que hoje ganha 4–5% ao ano simplesmente mantendo USDC na Coinbase, a mudança é concreta e direta: esse produto deixa de existir na sua forma atual. A Coinbase vai precisar ou transformar o produto em um modelo de yield ativo (vinculado a uso ou transações) ou descontinuá-lo. A pergunta interessante é o que vem no lugar.


O que é yield-as-a-service — e por que a restrição cria o mercado

Joe Vollono, Chief Commercial Officer da STBL — uma empresa de infraestrutura para stablecoins — foi o primeiro a articular publicamente o conceito ao CoinDesk: “O que o CLARITY Act efetivamente faz é mudar a indústria de um mercado hold-to-earn para um mercado use-to-earn. Você vai precisar de estratégias de yield em compliance para gerar recompensas sobre capital que de outra forma ficaria ocioso.”

Yield-as-a-service é o nome dado à infraestrutura que empresas vão construir para entregar esse rendimento ativo de forma escalável e em compliance. Em vez de um modelo simples onde a exchange paga 5% ao ano sobre depósitos de USDC com seu próprio balanço, o modelo de yield-as-a-service é uma camada de tecnologia e compliance que conecta capital ocioso de stablecoin a oportunidades de rendimento ativo — empréstimos comerciais, provisão de liquidez, trade finance, serviços de pagamento — e distribui o rendimento de forma que satisfaça a Seção 404.

A analogia histórica mais próxima é o que aconteceu com os programas de rewards de cartão de crédito. Nos anos 1990 e 2000, reguladores americanos colocaram limites em interchange fees — as taxas que os bancos cobram dos comerciantes por cada transação com cartão. Em vez de simplesmente perder receita, os emissores de cartão redirecionaram parte dessa receita para o consumidor na forma de milhas, cashback e pontos. Nasceu assim um mercado de $50 bilhões ao ano em loyalty programs que não existia antes da regulação. A restrição criou o produto.

No caso das stablecoins, a lógica é análoga. Com $316 bilhões em stablecoins em circulação — 90% em USDT e USDC — e um mercado de pagamentos globais de stablecoin que processou mais de $27 trilhões em volume em 2025, existe uma base enorme de capital e transações sobre a qual construir produtos de yield ativo. O que a Seção 404 faz é forçar a indústria a construir a infraestrutura de compliance e distribuição que tornaria esse mercado escalável — em vez de continuar no modelo simples de “pague yield com o balanço próprio da exchange”.

O papel da IA nesse mercado é o que torna o conceito de yield-as-a-service particularmente interessante. O yield ativo — distribuído entre múltiplas estratégias de empréstimo, liquidez, trade finance e pagamentos — é fundamentalmente um problema de otimização: como alocar capital entre diferentes oportunidades de rendimento de forma a maximizar retorno, manter liquidez e satisfazer requisitos regulatórios em tempo real. É exatamente o tipo de problema que modelos de IA são bons em resolver. A STBL, entre outras empresas, está construindo treasury e ferramentas de gestão de colateral orientadas por IA que fariam exatamente isso — um “co-piloto de yield” para stablecoins institucionais.


Por que os bancos podem se tornar participantes, não concorrentes

Um dos argumentos mais consistentes contra as stablecoins com yield passivo veio dos bancos — especificamente dos seus grupos de lobby. A preocupação era de “fuga de depósitos”: se um consumidor pode manter USDC na Coinbase e receber 5% ao ano, por que manteria dinheiro numa conta corrente bancária que rende 0,5%? O risco de desintermediação bancária era real e foi um dos fatores que deu força política à Seção 404 durante as negociações do CLARITY Act.

Com a Seção 404, esse risco é mitigado — mas cria um outro cenário que os bancos podem achar mais interessante do que esperavam. Se o modelo de yield passivo de stablecoin é proibido, mas o yield ativo por uso é permitido, as instituições financeiras tradicionais ficam em uma posição competitiva melhor do que antes: elas já têm a infraestrutura de empréstimo, trade finance e gestão de colateral que gera o tipo de yield que a Seção 404 permite. Em vez de competir com exchanges que pagam yield com o próprio balanço, os bancos podem se tornar fornecedores de yield para os ecossistemas de stablecoin — participantes ativos do mercado de yield-as-a-service.

Vollono articulou exatamente essa visão ao CoinDesk: “Bancos preocupados com fuga de depósitos podem eventualmente se tornar participantes da economia de stablecoin em vez de concorrentes.” O mecanismo seria: um banco usa sua infraestrutura de empréstimo para gerar rendimento sobre capital de stablecoin que flui pela sua plataforma, e distribui esse rendimento como recompensas por transações — em compliance com a Seção 404. É uma visão de coexistência que o setor bancário resistiu ativamente enquanto o modelo de yield passivo existia como alternativa direta.

A Fiserv — que integrou stablecoins Solana para 10.000 bancos e 6 milhões de comerciantes — é o caso mais concreto desse modelo emergindo. A empresa está construindo a infraestrutura que conecta bancos tradicionais à economia de stablecoin. Com a Seção 404 favorecendo yield por uso, os bancos que já têm essa infraestrutura de transações e clientes se tornam peças-chave do ecossistema de yield-as-a-service — em vez de alvos de desintermediação.


O que isso significa para o investidor brasileiro

O impacto mais imediato para o investidor brasileiro é sobre os produtos que ele usa hoje para gerar rendimento em dólar via stablecoins. Plataformas internacionais como Coinbase, Binance e Kraken que pagam yield passivo sobre USDT e USDC vão precisar reformular ou descontinuar esses produtos após a implementação do CLARITY Act — o que, na linha do tempo atual, deve acontecer ao longo de 2027.

Plataformas brasileiras que oferecem produtos similares — rendimento em dólar via stablecoin — vão depender de como o Banco Central e a CVM adaptam as regras locais em resposta à regulação americana. O Brasil tem historicamente seguido as tendências regulatórias dos EUA e da União Europeia com defasagem de 12 a 24 meses. É razoável esperar que reguladores brasileiros comecem a endereçar o yield passivo em stablecoins como parte do framework de criptoativos que está sendo desenvolvido.

Para quem investe em cripto com foco em renda, a mudança sugere um reposicionamento estratégico: em vez de buscar yield passivo em stablecoins — que vai diminuir regulatoriamente — olhar para yield ativo gerado por uso real. Isso inclui participação em pools de liquidez DeFi (que têm isenção parcial), produtos de empréstimo com BTC como colateral (que o relatório Ledn mostrou ser um mercado de $1 trilhão em potencial), e futuros produtos de yield-as-a-service que vão surgir à medida que a infraestrutura de compliance for construída.

O padrão histórico é consistente: toda vez que uma regulação proíbe uma forma de rendimento fácil, o mercado constrói um produto mais sofisticado e estruturalmente sólido no lugar. O fim dos altos juros de poupança nos EUA nos anos 1980 criou os money market funds. O teto de interchange fees criou os programas de rewards. A proibição de yield passivo em stablecoins pode criar o maior mercado de yield ativo em cripto da história — e as empresas que construirem essa infraestrutura primeiro vão capturar valor desproporcional.


Perguntas Frequentes

O USDC Rewards da Coinbase vai acabar?

Na sua forma atual — yield passivo pago simplesmente por manter USDC na plataforma — sim, o produto está diretamente na mira da Seção 404 do CLARITY Act. A Coinbase vai precisar ou transformá-lo em um modelo de yield vinculado a uso e transações, ou descontinuá-lo. O timing depende de quando o CLARITY Act for sancionado e quanto tempo os reguladores têm para implementar o framework (atualmente estimado em 12 meses após a sanção). O impacto prático chegaria ao consumidor em 2027.

Qual a diferença entre yield passivo e yield ativo na prática?

Yield passivo: você deposita 1.000 USDC na Coinbase e recebe $50 ao fim do ano sem fazer mais nada. O rendimento é função exclusiva de ter o ativo parado na plataforma. Yield ativo: você usa 1.000 USDC para fazer 200 transações no mês e recebe $2 em recompensas por cada transação — total de $400 no ano, mas derivado do uso, não da custódia. Ou você deposita os 1.000 USDC em um pool de liquidez Uniswap e recebe uma fração das taxas cobradas sobre cada swap que passa pelo pool — yield gerado por serviço ativo de liquidez, não por simplesmente guardar o ativo.

O DeFi como Aave e Uniswap também é proibido pela Seção 404?

É uma zona cinza que ainda vai ser definida na implementação regulatória. A Seção 404 aplica-se a Digital Asset Service Providers — e a Seção 409 do mesmo CLARITY Act cria uma isenção explícita para desenvolvedores de protocolos DeFi descentralizados que não tomam custódia de ativos e não exercem controle sobre os fundos dos usuários. Aave e Uniswap, operando como protocolos sem custódia, devem se enquadrar nessa isenção. O que vai ser testado é onde a linha é traçada entre um protocolo “verdadeiramente descentralizado” e uma plataforma CeFi que simplesmente usa linguagem de DeFi para se apresentar como descentralizada.

Por que o GENIUS Act (já lei) não resolveu esse problema?

O GENIUS Act, sancionado em julho de 2025, regula a emissão de stablecoins — quem pode emitir, com que reservas, sob qual regulador. Ele não endereçou como o yield sobre stablecoins deveria ser tratado. Essa lacuna foi intencional: o debate sobre yield era politicamente mais sensível do que as questões de emissão e reservas, e os autores do GENIUS Act preferiram não colocar em risco o projeto incluindo uma seção sobre yield. O CLARITY Act é o projeto que pega onde o GENIUS Act parou — e a Seção 404 é a peça que estava faltando no quebra-cabeça regulatório de stablecoins.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

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