18 de agosto de 2026 · Amanhã, quarta-feira 19 de agosto, acontece em Washington um dos encontros mais simbólicos do ano para o setor de criptomoedas. O presidente Trump vai se reunir na Casa Branca com os maiores nomes da indústria, executivos da Coinbase, Ripple, Kraken, Gemini, a16z, Chainlink, além das plataformas de mercados de previsão Kalshi e Polymarket, e das bolsas tradicionais NYSE e Nasdaq. E, mais importante, na mesma sala estarão os dois principais reguladores do país: Paul Atkins, presidente da SEC (a comissão de valores mobiliários), e Michael Selig, presidente da CFTC (a reguladora de commodities e derivativos), somados aos secretários do Tesouro e do Comércio. Uma reunião com essa composição não é apenas protocolar. Como resumiu uma análise, “listas de convidados são documentos de política”, e essa lista conta uma história clara. Ela acontece num momento em que a grande aposta legislativa do setor, o CLARITY Act, está congelada no Senado, com as chances de aprovação em 2026 desabando para cerca de 17%. O recado que essa reunião parece enviar é o de que o governo americano, cansado de esperar o Congresso, escolheu um segundo caminho para dar regras ao mercado. Esta newsletter explica o que está em jogo no encontro, por que ele representa uma possível virada de estratégia, e o que isso significa para quem investe pensando no longo prazo.
Tempo de leitura: ~6 min
Neste artigo
A reunião
19 de agosto
Trump, SEC, CFTC, Tesouro e os maiores nomes do setor, no complexo da Casa Branca
CLARITY Act hoje
~17%
de chance de virar lei em 2026, segundo apostas de mercado · caiu de 82% no início do ano
Próximo teste no Senado
15 de setembro
votação procedural (cloture) que precisa de 60 votos para o projeto avançar ao debate
O outro caminho
A via das agências
a SEC já iniciou em 14/ago a proposta de regras próprias para ofertas de ativos cripto
A reunião: quem está na sala e por quê
O encontro está marcado para a tarde de quarta-feira, no Eisenhower Executive Office Building, parte do complexo da Casa Branca. A composição da sala é o que mais chama atenção. De um lado, os grandes nomes do setor: as exchanges Coinbase, Kraken e Gemini, a Ripple, a gigante de investimentos a16z, a Chainlink, e as plataformas de mercados de previsão Kalshi e Polymarket. Do outro, as instituições financeiras tradicionais, com a Bolsa de Nova York, a Nasdaq, a CME e a corretora Robinhood. E, no centro, o poder regulatório e político: o presidente Trump, os chefes da SEC e da CFTC, e os secretários do Tesouro, Scott Bessent, e do Comércio, Howard Lutnick.
Reunir, na mesma mesa, as empresas nativas de cripto, as bolsas tradicionais e os dois reguladores que disputam a autoridade sobre o setor é, por si só, uma declaração. Mostra que o governo americano passou a tratar os ativos digitais como parte da arquitetura futura do sistema financeiro do país, e não mais como um nicho à margem. O encontro também é a véspera de outro marco: no dia seguinte, 20 de agosto, a CFTC realiza a primeira reunião do seu novo Comitê de Inovação, cuja sessão de abertura se chama, de forma reveladora, “A evolução regulatória do cripto: da incerteza à clareza”.
O que se espera que os executivos peçam também é revelador. Coinbase e Ripple, segundo os relatos, devem pressionar por regras mais firmes para os trilhos de liquidação das stablecoins e por um caminho de licenciamento para bancos nativos de cripto. São temas concretos, de infraestrutura, o tipo de assunto que se discute quando o setor deixa de lutar por legitimidade e passa a construir suas fundações.
O pano de fundo: o CLARITY Act travou
Para entender a importância da reunião, é preciso lembrar de onde viemos. Ao longo de julho e agosto, acompanhamos passo a passo a novela do CLARITY Act, o projeto que definiria em lei as regras do mercado de cripto nos Estados Unidos, dividindo a fiscalização entre a SEC e a CFTC. O projeto passou na Câmara em 2025, mas empacou no Senado. Antes do recesso de agosto, o líder da maioria, John Thune, protocolou uma moção que marcou uma votação procedural para 15 de setembro, salvando o projeto de morrer, mas sem garantir nada.
O problema é que os obstáculos seguem os mesmos que mapeamos: disputas sobre as regras de ética (para impedir que autoridades, incluindo o próprio presidente, lucrem com cripto), sobre o rendimento de stablecoins e sobre as salvaguardas contra lavagem de dinheiro. Sem esses pontos resolvidos, faltam os votos democratas necessários. As apostas de mercado refletem o pessimismo: de 82% de chance de aprovação no início do ano, o CLARITY despencou para cerca de 17%, e algumas casas de análise dão números ainda menores.
É importante o cuidado com os números de probabilidade: eles vêm de mercados de apostas e de estimativas de analistas, não são uma medição exata do futuro. Mas a direção é clara e consistente entre as fontes: a confiança numa aprovação em 2026 caiu muito. E é justamente esse vácuo que dá sentido à reunião de amanhã.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é informativo e descreve um processo político em andamento, sujeito a mudanças rápidas. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
Os dois caminhos: a lei e as agências
Aqui está o ponto central para entender o momento. Existem dois caminhos para dar regras claras ao mercado de cripto nos Estados Unidos, e eles correm em paralelo. Entender a diferença entre eles é entender a estratégia do governo.
Os dois caminhos para regular o cripto
| Caminho | Como funciona e o que muda |
|---|---|
| A lei (CLARITY Act) | Passa pelo Congresso, é mais lenta e disputada, mas cria uma base permanente e difícil de reverter por futuros governos |
| As agências (SEC e CFTC) | São mais rápidas, o governo controla diretamente, mas as regras são administrativas e podem ser revertidas por gestões futuras |
Com a lei emperrada, o governo acelerou o segundo caminho. Em 14 de agosto, a SEC iniciou formalmente o processo de propor suas próprias regras, criando um regime específico para certas ofertas de ativos cripto. É uma ação da agência, que não depende de o Congresso aprovar nada. A presidente-comissária Hester Peirce foi direta ao dizer que a SEC vai continuar regulando o cripto independentemente do destino do projeto de lei. A reunião de amanhã, com os dois reguladores na sala e os secretários do governo, encaixa-se exatamente nessa lógica: mostrar que a clareza pode vir por decreto administrativo, mesmo sem a lei.
O que a escolha pelas agências significa
Essa virada tem dois lados, e a análise honesta precisa mostrar os dois. O lado positivo é a velocidade. Enquanto uma lei pode levar anos e depende de dezenas de votos negociados, uma agência pode agir em meses. Para um setor que reclama de anos de incerteza, ter a SEC e a CFTC desenhando regras concretas é um alívio de curto prazo, e a reunião de amanhã sinaliza que essa via está ativa e priorizada.
O lado frágil é a permanência. Regras de agência são construídas sobre uma base menos sólida que uma lei. Elas podem ser desfeitas por uma futura gestão da própria agência, ou por um novo governo, sem precisar passar pelo Congresso. É a mesma distinção que já exploramos em outras edições: uma coisa é uma clareza escrita em lei, permanente; outra é uma clareza que depende de quem está no comando das agências. A via administrativa entrega rapidez, mas não a estabilidade duradoura que só uma lei federal daria. Além disso, as regras que a SEC está propondo são mais estreitas que o arcabouço amplo que o CLARITY Act traria.
Por isso, a leitura mais equilibrada é que os dois caminhos não competem, eles se complementam. A via das agências dá o avanço possível agora, enquanto a lei, se um dia passar, consolidaria em base firme o que as agências foram construindo. A reunião de amanhã não resolve o impasse do CLARITY, mas mantém o movimento em frente por outra porta. E, para o setor, movimento em frente, mesmo que imperfeito, é melhor que a paralisia.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, a reunião de amanhã é importante de acompanhar, mas com a perspectiva certa. Ela não é um gatilho de preço de curto prazo, e sim mais um sinal sobre a direção estrutural de longo prazo: os Estados Unidos, o maior mercado financeiro do mundo, seguem construindo, por dois caminhos paralelos, a arquitetura regulatória que faltava ao cripto. Que os maiores nomes do setor, as bolsas tradicionais e os reguladores estejam na mesma sala é a confirmação de que os ativos digitais viraram parte séria do sistema.
A leitura da Formadores é que esse movimento se encaixa na tese de fundo que viemos construindo o mês inteiro: a infraestrutura institucional do cripto está sendo assentada, tijolo por tijolo, longe da euforia de preço. A regulação, a tokenização, os ETFs, a reserva estratégica, todos são peças da mesma construção. E é revelador que, mesmo com o CLARITY travado, o setor não tenha entrado em colapso: como notaram os próprios analistas, um projeto de lei parado não abala os fundamentos do Bitcoin, das grandes redes ou do crescimento das stablecoins. O adiamento é frustração de cronograma, não reversão de rumo.
Na prática, o que observar é concreto: se sairá algum anúncio da reunião de amanhã, e a votação procedural do CLARITY em 15 de setembro, o próximo teste real no Congresso. Mas, para quem investe com horizonte de anos, a mensagem maior é de serenidade. A construção regulatória avança em ziguezague, com avanços por um caminho quando o outro emperra. Quem acompanha cada manchete como se fosse decisiva se desgasta à toa. Quem entende o processo enxerga o sinal por trás do ruído: a estrutura está sendo construída, de um jeito ou de outro, e a direção de longo prazo, para quem pensa em anos, é o que realmente importa.
O que resume o momento: a manchete é uma foto poderosa, o presidente e os maiores nomes do cripto na Casa Branca. Mas a história por trás é mais estratégica. Com a lei travada no Congresso, o governo escolheu construir a clareza regulatória por outro caminho, o das agências. É mais rápido, porém menos permanente. Para o investidor de fundo, a lição é serena: a regulação do cripto nos Estados Unidos está avançando, mesmo que não pela porta que se esperava. O caminho mudou, a direção, não.
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