25 de agosto de 2026 · Enquanto o Bitcoin comemora a marca dos US$ 80 mil nesta semana, vale a pena olhar para um experimento que, há cinco anos, colocou o mundo inteiro para debater o futuro da moeda: a decisão de El Salvador de adotar o Bitcoin como moeda de curso legal. Em setembro de 2021, o pequeno país centro-americano se tornou o primeiro do mundo a dar ao Bitcoin o mesmo status do dólar, obrigando comércios a aceitá-lo e prometendo uma revolução: inclusão financeira para os 70% de salvadorenhos sem conta bancária, e remessas internacionais mais baratas para uma população que depende delas. Foi uma aposta ousada, celebrada pelos entusiastas como o futuro e criticada pelos céticos como uma temeridade. Cinco anos depois, temos algo muito mais valioso do que opiniões: temos dados. E os dados contam uma história fascinante, porque ela não é nem o triunfo total que uns previam, nem o fracasso absoluto que outros anunciavam. É uma história de duas faces, e entender essa nuance ensina muito sobre o que o Bitcoin é, e o que ele ainda não é. Esta newsletter faz um balanço honesto do experimento salvadorenho: o que foi prometido, o que foi entregue, e a lição que fica para o investidor.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
Remessas em cripto
0,7%
do total de remessas no 1º semestre de 2026 · a promessa principal do experimento praticamente não se realizou
Lucro estimado da reserva
~US$ 310 mi
lucro não realizado, com o BTC a ~US$ 80 mil · ~7.600 BTC comprados a um custo médio de ~US$ 45 mil
Uso pela população
92%
dos salvadorenhos não usaram Bitcoin no ano anterior, segundo pesquisa · a adoção diária não decolou
A virada de 2025
Fim do curso legal
em 2025, o status de moeda legal foi revogado, uma condição para o empréstimo de US$ 1,4 bi do FMI
A promessa: o que El Salvador queria alcançar
Para julgar o experimento com justiça, é preciso lembrar o que ele prometia. O presidente Nayib Bukele apresentou a adoção do Bitcoin com três grandes objetivos, todos voltados a problemas reais do país. O primeiro era a inclusão financeira: cerca de 70% dos salvadorenhos não tinham conta em banco, e o Bitcoin, acessível por um simples celular, poderia trazer essas pessoas para o sistema financeiro.
O segundo objetivo, e talvez o mais importante, eram as remessas. El Salvador depende profundamente do dinheiro que seus cidadãos no exterior enviam para casa, algo que representa mais de um quarto de toda a economia do país. Enviar esse dinheiro pelos canais tradicionais, como a Western Union, custa caro em taxas. A promessa era que o Bitcoin tornaria as remessas quase instantâneas e muito mais baratas, economizando centenas de milhões de dólares por ano para as famílias. Para incentivar a adoção, o governo lançou a carteira digital Chivo e distribuiu US$ 30 em Bitcoin para cada cidadão que a baixasse.
O terceiro objetivo era transformar o país num polo de inovação e investimento, atraindo capital, empresas e turismo cripto do mundo todo. Era uma visão ambiciosa: fazer de um pequeno país centro-americano o laboratório vivo do futuro do dinheiro. Cinco anos depois, podemos comparar essa visão com os números.
A face que decepcionou: o Bitcoin como moeda do dia a dia
Aqui está a parte sóbria do balanço, e é importante encará-la de frente. Como moeda para o uso cotidiano, o experimento ficou muito aquém do prometido. Os números são claros e vale mostrá-los sem maquiagem.
A promessa central, as remessas, praticamente não se concretizou. No primeiro semestre de 2026, apenas 0,7% de todo o dinheiro enviado para o país passou por canais de cripto, cerca de US$ 35 milhões de um total de mais de US$ 5 bilhões. Ou seja, mesmo cinco anos depois, mais de 99% das remessas continuam usando os canais tradicionais. A economia de “centenas de milhões em taxas” não aconteceu na escala prometida. E o uso no dia a dia também não decolou: pesquisas indicaram que a grande maioria dos salvadorenhos, algo como 92%, não usou Bitcoin ao longo de um ano, e os estudos independentes encontraram melhora mínima na inclusão financeira, justamente o principal argumento do projeto.
Essa realidade levou a uma virada importante. No início de 2025, para conseguir um empréstimo de US$ 1,4 bilhão do Fundo Monetário Internacional (FMI), El Salvador aceitou revogar o status de moeda legal do Bitcoin, tornando sua aceitação voluntária para o comércio e iniciando o encerramento gradual da carteira Chivo. Na prática, o país recuou da parte mais ousada do experimento. O próprio Bukele já havia admitido que a medida foi a mais impopular do seu governo. Como moeda nacional obrigatória, portanto, a experiência foi encerrada.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e faz um balanço factual de uma política pública. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
A face que surpreendeu: o Bitcoin como reserva
Mas aqui a história vira, e é por isso que ela é tão interessante. Se o Bitcoin decepcionou como “dinheiro para comprar o pão”, ele brilhou numa função diferente: a de reserva de valor no tesouro nacional. Ao longo de todos esses anos, mesmo após revogar o curso legal, o governo manteve o hábito de comprar Bitcoin de forma regular, acumulando uma reserva estratégica.
Hoje, El Salvador detém cerca de 7.600 bitcoins, avaliados em torno de US$ 600 milhões, com a valorização do ativo colocando essa reserva num lucro substancial. Na prática, o país acabou funcionando como um fundo soberano que apostou no Bitcoin, e essa aposta, do ponto de vista financeiro, deu retorno. A reserva ajuda a compor o patrimônio nacional e serve de contrapeso às pressões da dívida tradicional. Foi a face menos badalada do experimento, mas a que trouxe resultado financeiro concreto.
É justo, porém, registrar uma ressalva de honestidade. O próprio FMI observou que parte do aumento aparente da reserva pode refletir movimentações entre carteiras do próprio governo, e não apenas compras novas no mercado, o que torna o rastreador público um pouco ambíguo. Ou seja, o tamanho exato do esforço de compra é objeto de alguma disputa. Mas o ponto central permanece: a estratégia de tesouraria, de acumular e segurar Bitcoin como reserva, foi a face bem-sucedida do experimento, enquanto o uso como moeda corrente foi a que fracassou.
A estratégia de compra: “1 Bitcoin por dia”
Vale a pena detalhar como El Salvador montou essa reserva, porque a estratégia é uma aula de disciplina, e é replicável em escala pessoal. Tudo começou em setembro de 2021, quando o país fez suas primeiras compras, em lotes, ao adotar o Bitcoin como moeda legal. O problema é que essas primeiras compras foram feitas com o preço lá em cima, perto das máximas da época, e logo veio o “inverno cripto” de 2022, que derrubou o Bitcoin para baixo de US$ 20 mil. Naquele momento, o país estava no prejuízo, e os críticos comemoravam.
Foi aí que veio a virada de estratégia. Em 17 de novembro de 2022, no fundo do poço do mercado, com o Bitcoin perto de US$ 16 mil, o presidente Bukele anunciou: o país passaria a comprar 1 Bitcoin por dia, todos os dias, independentemente do preço. Essa é a essência de uma técnica chamada “preço médio”, em inglês dollar-cost averaging: em vez de tentar adivinhar o melhor momento para comprar, você compra um valor fixo de forma regular, o que dilui o preço médio ao longo do tempo e remove a emoção da decisão.
Comprar todo dia durante o mercado em baixa foi justamente o que derrubou o preço médio do país. As compras baratas de 2022 e 2023 compensaram as compras caras de 2021. Com o tempo, e algumas compras extras em momentos específicos, El Salvador acumulou o que tem hoje, com um custo médio bem mais baixo do que o das primeiras aquisições. Veja a evolução:
A jornada da reserva de El Salvador
| Momento | O que aconteceu |
|---|---|
| Setembro de 2021 | Primeiras compras em lotes, com o preço alto; logo veio a queda de 2022 e o país ficou no prejuízo |
| 17 de novembro de 2022 | Bukele anuncia a compra de 1 BTC por dia, no fundo do mercado, com o preço perto de US$ 16 mil |
| 2023 a 2025 | Compras diárias e extras, mantidas mesmo após revogar o curso legal; o custo médio vai caindo |
| Hoje (2026) | ~7.600 BTC, custo médio de ~US$ 45 mil, valor de ~US$ 600 mi e lucro estimado de ~US$ 310 mi |
Fazendo a conta com o Bitcoin em torno de US$ 80 mil: o país investiu aproximadamente US$ 290 milhões ao longo dos anos, e a reserva vale hoje cerca de US$ 600 milhões. Isso dá um lucro não realizado estimado em torno de US$ 310 milhões, mais que o dobro do que foi investido. Para efeito de comparação, em maio de 2025, quando o Bitcoin bateu perto de US$ 100 mil, o próprio Bukele publicou um painel mostrando lucro de US$ 386 milhões. O número dança conforme o preço, mas a reserva está no positivo de forma consistente desde que o Bitcoin superou o custo médio de compra do país.
Duas ressalvas de honestidade, sempre. Primeiro, é lucro no papel, não realizado: eles não venderam, e o valor sobe e desce com o preço. Se o Bitcoin cair abaixo do custo médio de ~US$ 45 mil, a reserva volta ao prejuízo. Segundo, os números exatos são estimativas baseadas em rastreadores públicos e nos anúncios do governo, e o próprio FMI já apontou que parte do acúmulo pode ser movimentação entre carteiras. Mas a lição da estratégia permanece intacta, e é poderosa.
O balanço de El Salvador ensina algo profundo sobre a natureza do Bitcoin, algo que separa as duas grandes funções que se atribuem a ele.
As duas faces do experimento, cinco anos depois
| Função | O resultado em El Salvador |
|---|---|
| Meio de pagamento (moeda do dia a dia) | Decepcionou: só 0,7% das remessas, uso diário baixíssimo, status de moeda legal revogado em 2025 |
| Reserva de valor (tesouro que acumula) | Surpreendeu: ~7.600 BTC, ~US$ 600 milhões, em lucro, funcionando como fundo soberano |
A lição é reveladora: hoje, o Bitcoin se mostra muito mais eficaz como reserva de valor de longo prazo (o “ouro digital”) do que como meio de pagamento cotidiano. Tentar forçar o país inteiro a usá-lo para comprar café e pagar contas esbarrou na volatilidade, no hábito e na infraestrutura existente. Já usá-lo como um ativo de tesouraria, comprado e guardado com visão de longo prazo, se mostrou uma estratégia financeiramente vencedora. Não é coincidência que essa seja exatamente a mesma lógica por trás das reservas estratégicas de Bitcoin que os Estados Unidos e outros países passaram a discutir, tema que já exploramos aqui.
E há uma nota importante que conecta com o que viemos observando: para o uso cotidiano, quem realmente resolveu o problema na América Latina não foi o Bitcoin, e sim as stablecoins, as moedas atreladas ao dólar. Enquanto o Bitcoin brilha como reserva, são as stablecoins que dominam o uso prático do dia a dia, representando a maior parte da atividade cripto no Brasil e na região. Cada ferramenta encontrou seu papel: o Bitcoin para guardar valor, a stablecoin para movimentá-lo.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, o balanço de El Salvador oferece uma das lições mais maduras que existem no mundo cripto: a importância de entender para que serve cada ativo. O erro do experimento não foi acreditar no Bitcoin, foi tentar usá-lo para uma função (moeda cotidiana) que, ao menos por enquanto, não é a sua força. A mesma decisão, aplicada à função certa (reserva de valor de longo prazo), deu certo. Saber diferenciar as funções é o que separa a euforia ingênua da convicção informada.
A leitura da Formadores é que esse caso real reforça, na prática, a tese que sustentamos: o Bitcoin faz mais sentido como um ativo de reserva, comprado e mantido com paciência e visão de longo prazo, do que como um instrumento de uso imediato ou de especulação de curto prazo. E a estratégia que deu certo, comprar de forma regular e disciplinada, inclusive nos momentos de baixa, é justamente a técnica do preço médio que qualquer investidor pode aplicar na sua escala. Não é preciso comprar 1 Bitcoin por dia como um país; a lição está no método: aportes constantes, sem tentar adivinhar o topo ou o fundo, deixando o tempo diluir o preço e trabalhar a favor. El Salvador, sem querer, virou um experimento nacional dessa ideia, e a face que deu certo foi justamente a da paciência.
Vale, claro, a ressalva de sempre: o fato de a reserva de El Salvador estar em lucro hoje é resultado da valorização do Bitcoin, que é volátil e pode cair. Não é garantia de nada, e um país que aposta parte do tesouro num ativo volátil também assume um risco real. Mas, como estudo de caso, o experimento salvadorenho entrega uma mensagem clara para quem investe pensando em anos: entenda o que você está comprando e por quê. O Bitcoin mostrou ser uma reserva de valor promissora e uma moeda cotidiana ainda problemática. Reconhecer essa diferença, sem hype e sem negação, é o tipo de clareza que constrói decisões melhores e patrimônio mais sólido.
O que resume o tema: cinco anos depois, o experimento de El Salvador não foi nem o triunfo que os fãs juravam, nem o desastre que os críticos anunciavam. Foi uma lição de nuance. Como moeda do dia a dia, o Bitcoin decepcionou, e o país recuou. Como reserva estratégica guardada com paciência, rendeu centenas de milhões e virou um fundo soberano lucrativo. A mensagem para o investidor é a mais valiosa que existe: o Bitcoin tem um papel claro, o de reserva de valor de longo prazo, e é nesse papel que ele entrega o seu melhor. Entender isso, sem euforia nem negação, é o que transforma uma aposta num investimento.
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