10 de setembro de 2026 · Todo dia, o mercado de cripto conta uma história através dos setores que mais sobem e dos que mais caem. E, nesta quinta-feira, mesmo com o mercado geral em queda, dois grupos específicos de criptomoedas chamaram a atenção ao liderar os ganhos: as chamadas “moedas de privacidade” e as “criptomoedas resistentes a quântico”. À primeira vista, parecem categorias técnicas e distantes. Mas elas contam algo profundo sobre os medos e as expectativas do mercado neste momento, porque cada uma responde a uma ansiedade real e crescente. As moedas de privacidade respondem ao medo da vigilância, num mundo em que cada transação é cada vez mais rastreada. As resistentes a quântico respondem ao medo do futuro, à possibilidade de que os supercomputadores de amanhã quebrem a segurança do cripto de hoje. Que esses dois grupos estejam entre os maiores ganhos, justamente num dia de queda, não é coincidência, é um retrato das preocupações que rondam o setor. Esta newsletter explica, de forma acessível, o que são essas duas categorias, por que elas estão ganhando força agora, e, com a honestidade de sempre, faz a leitura equilibrada sobre o risco que existe por trás desses movimentos rápidos e chamativos.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
A ansiedade nº 1
Vigilância
num mundo em que cada transação é rastreada, cresce a busca por privacidade financeira on-chain
A ansiedade nº 2
O quântico
o medo de que os computadores quânticos do futuro quebrem a criptografia que protege o cripto de hoje
As duas maiores
Zcash e Monero
as duas principais moedas de privacidade, com anos de história e abordagens diferentes de anonimato
O sinal de alerta
Sobrecompra
várias dessas moedas subiram de forma vertical e vertiginosa, um sinal de risco elevado para quem entra tarde
O que são as moedas de privacidade
Vamos começar por um mal-entendido comum. Muita gente pensa que o Bitcoin é anônimo, mas não é bem assim. O Bitcoin é o que chamamos de pseudônimo: todas as transações ficam registradas para sempre num livro público (a blockchain), e qualquer pessoa com o seu endereço de carteira pode ver tudo o que você já enviou e recebeu. Existe até site especializado em rastrear isso. Uma boa analogia é pensar no Bitcoin como uma carteira de vidro: ninguém sabe necessariamente que ela é sua, mas todos podem ver o que há dentro.
As moedas de privacidade nasceram para resolver isso. Se o Bitcoin é uma carteira de vidro, elas são um envelope lacrado: escondem quem enviou, quem recebeu e quanto foi transferido. As duas mais importantes, com anos de mercado, são o Zcash e o Monero, e elas usam abordagens diferentes. O Monero esconde todas as transações por padrão, automaticamente, o que lhe dá a privacidade mais forte. O Zcash usa uma tecnologia chamada “provas de conhecimento zero” (em inglês, zk-SNARKs), que permite ao usuário escolher entre esconder ou revelar uma transação, e até revelá-la seletivamente para um regulador, se necessário. Essa flexibilidade é vista por alguns como uma forma de conciliar privacidade e conformidade regulatória.
Por que a demanda por privacidade cresce agora? Por uma combinação de fatores. À medida que o cripto se integra ao sistema financeiro (com tokenização, stablecoins e a entrada dos bancos, temas que viemos cobrindo), aumenta também a vigilância sobre as transações. Empresas e indivíduos que não querem expor toda a sua atividade financeira ao público (nem a concorrentes, nem a curiosos) passam a valorizar ferramentas de privacidade. Não à toa, o Zcash teve uma valorização enorme ao longo do último ano, e vozes influentes do setor, como Arthur Hayes e Naval Ravikant, se posicionaram a favor dele.
O que é a “ameaça quântica” e as moedas resistentes
A segunda categoria responde a um medo mais futurista, mas levado a sério. Toda a segurança do cripto, e da internet como um todo, se baseia em criptografia, ou seja, em problemas matemáticos que são praticamente impossíveis de resolver pelos computadores atuais. É isso que protege as chaves das suas moedas. O problema é que os computadores quânticos, uma nova geração de máquinas ainda em desenvolvimento, poderiam, no futuro, resolver esses problemas com facilidade, quebrando a criptografia que usamos hoje.
Se isso acontecesse, as chaves privadas que protegem as carteiras (inclusive as de Bitcoin) ficariam vulneráveis, o que poderia levar a roubos em massa. É uma ameaça séria, embora ainda distante, já que os computadores quânticos poderosos o bastante para isso ainda não existem. As “criptomoedas resistentes a quântico” são projetos construídos com uma criptografia diferente, chamada “pós-quântica”, desenhada para resistir a esse tipo de ataque futuro. Alguns projetos, como o Quantum Resistant Ledger (QRL), foram criados desde o início com esse propósito, enquanto redes maiores estão correndo para adicionar essa proteção, como já mostramos que o Ethereum e o Bitcoin estão fazendo.
Vale registrar o contraponto honesto: há um debate real sobre o quão urgente é essa ameaça. Muitos especialistas argumentam que os computadores quânticos capazes de quebrar a criptografia atual estão a muitos anos, talvez décadas, de distância, e que o setor terá tempo de sobra para se adaptar. Ou seja, o medo do quântico é legítimo como preocupação de longo prazo, mas pode estar sendo exagerado como um risco iminente. É importante não confundir uma precaução sensata para o futuro com um perigo para amanhã.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo. Moedas de privacidade e de nicho envolvem risco elevado e volatilidade extrema. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
Por que as duas categorias se conectam
Um detalhe interessante é que privacidade e resistência quântica não são temas separados, eles se sobrepõem. A mesma tecnologia de “provas de conhecimento zero” que dá privacidade ao Zcash também oferece, em certa medida, uma proteção maior contra ataques quânticos, porque não expõe as informações sensíveis publicamente. Por isso, muitas moedas aparecem nas duas listas ao mesmo tempo. As duas ansiedades, no fundo, são faces de uma mesma preocupação: a segurança e o controle sobre os próprios dados e fundos.
As duas ansiedades que movem esses ganhos
| Categoria | O medo que ela responde |
|---|---|
| Moedas de privacidade | O medo da vigilância: proteger quem enviou, quem recebeu e quanto, num mundo cada vez mais rastreado |
| Resistentes a quântico | O medo do futuro: proteger as moedas contra supercomputadores que um dia poderiam quebrar a criptografia |
Ver esses dois grupos subirem juntos, especialmente num dia de mercado fraco, revela uma “rotação temática”: o capital, em busca de retornos, gira para narrativas específicas que estão em alta no momento. É um comportamento típico de mercado, e entender qual narrativa está movendo o dinheiro ajuda a ler o clima do setor. Mas, como veremos, seguir essas rotações às cegas é justamente onde mora o perigo.
A cautela necessária: entusiasmo e risco
Aqui está a parte mais importante desta análise, e a que mais reflete a nossa postura. Uma coisa é entender por que essas moedas estão subindo (as ansiedades reais que elas endereçam); outra, muito diferente, é sair comprando por causa da alta. E os sinais de alerta, neste caso, são grandes.
Muitas dessas moedas subiram de forma vertical e vertiginosa em pouco tempo. Analistas técnicos apontam que várias delas estão em forte “sobrecompra”, um estado em que o preço subiu rápido demais e o risco de uma correção brusca aumenta bastante. Como resumiu um analista de forma crua, comprar um ativo que já disparou nesse ponto é “apostar que tolos maiores vão chegar mais rápido do que a gravidade”, ou seja, torcer para que alguém compre ainda mais caro de você antes que o preço caia. Às vezes funciona, mas não é um plano, é uma aposta.
Além da sobrecompra, há outros riscos concretos nessas moedas de nicho. A liquidez costuma ser baixa fora das duas ou três maiores, o que significa que os preços podem despencar com facilidade quando o entusiasmo passa. As moedas de privacidade enfrentam pressão regulatória em várias partes do mundo, já que governos temem seu uso para lavagem de dinheiro, o que pode levar a remoções de corretoras. E as narrativas temáticas, como a do quântico, podem esfriar tão rápido quanto esquentaram. Ou seja, entender a tendência é valioso; persegui-la no topo, comprando na euforia, é uma das formas mais comuns de perder dinheiro no cripto.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, o movimento dessas moedas oferece uma lição dupla, e as duas partes importam. A primeira é sobre entender o mercado: reconhecer que privacidade e segurança contra ameaças futuras são temas reais e legítimos, que provavelmente ganharão importância à medida que o cripto amadurece e a vigilância aumenta. Não é besteira, são preocupações válidas que endereçam problemas reais do mundo digital.
A segunda parte da lição, porém, é sobre disciplina, e é a que mais defendemos. Entender que uma narrativa é legítima não significa que seja uma boa decisão comprar o ativo depois que ele já disparou 800% ou 500%. A leitura da Formadores é que o investidor deve separar claramente duas coisas: o interesse intelectual por uma tendência e a decisão prática de investimento. Perseguir os maiores ganhos do dia, entrando em ativos de nicho no auge da euforia, é o oposto da estratégia paciente e de longo prazo que sustentamos. É a diferença entre estudar uma onda e se jogar nela sem saber nadar.
Na prática, esses temas de fronteira (privacidade, resistência quântica) são fascinantes de acompanhar e dizem muito sobre para onde a tecnologia caminha. Mas transformá-los em decisões de investimento exige uma cautela redobrada, dado o risco elevado, a baixa liquidez e a volatilidade extrema dessas moedas. Para quem investe pensando em anos, o mais sensato costuma ser construir uma base sólida em ativos mais consolidados e entendidos, e tratar essas apostas temáticas, se é que se decide fazê-las, como uma fração pequena e consciente do risco, coerente com o seu perfil. Entender a fronteira é sabedoria; confundir empolgação com estratégia é o erro que a disciplina evita.
O que resume o tema: num dia de queda, as moedas de privacidade e as resistentes a quântico lideraram os ganhos, refletindo duas ansiedades reais do mercado, o medo da vigilância e o medo do futuro. São temas legítimos, que endereçam problemas verdadeiros e mostram para onde a tecnologia caminha. Mas os ganhos rápidos escondem riscos igualmente grandes: sobrecompra, baixa liquidez e pressão regulatória. A lição madura não é ignorar essas tendências, nem se jogar nelas de cabeça, e sim entendê-las com curiosidade e agir com disciplina. Porque, no cripto, a diferença entre um bom estudo e uma má decisão mora exatamente aí.
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