Formadores de Mercado

A Dívida de US$ 40 Trilhões Volta ao Centro do Debate: Por Que os Maiores Gestores do Mundo Ligam o Bitcoin à Crise do Dólar

23 de setembro de 2026 · Depois do rali intenso das últimas semanas, é hora de tirar os olhos do sobe e desce do preço e olhar para a força mais profunda que muitos dos maiores investidores do mundo enxergam por trás do Bitcoin. E essa força tem um número: US$ 40 trilhões. É o tamanho da dívida do governo dos Estados Unidos, uma marca ultrapassada em agosto, e que voltou ao centro do debate financeiro global. O que chama a atenção é quem está falando sobre isso. Não são entusiastas anônimos de cripto, mas alguns dos nomes mais respeitados de Wall Street: Ray Dalio, um dos maiores investidores da história; os analistas do JPMorgan e do BlackRock, as maiores instituições financeiras do planeta; e gestores de fundos na Europa. Todos eles têm agrupado o Bitcoin e o ouro numa mesma categoria, batizada de “debasement trade”, ou “aposta na desvalorização”. A ideia é que, diante de uma dívida impagável, os governos serão tentados a desvalorizar suas moedas, e os investidores buscam refúgio em ativos escassos que não podem ser “impressos”. Esta newsletter explica essa tese, por que a dívida de US$ 40 trilhões fortalece o argumento do Bitcoin, quem são as vozes por trás dela, e, com a honestidade de sempre, por que essa é uma aposta de longo prazo, e não uma resposta automática. Como sempre, não vamos aqui prever para onde o preço vai, e sim entender o raciocínio de fundo.

Tempo de leitura: ~7 min

A dívida dos EUA

US$ 40 tri

marca ultrapassada em agosto · era US$ 36 tri um ano atrás e US$ 19 tri uma década atrás · cresce cada vez mais rápido

O peso dos juros

2º maior gasto

os juros da dívida já superaram o gasto com saúde e viraram a 2ª maior despesa do governo, atrás só da previdência

A tese

Debasement trade

“aposta na desvalorização”: comprar ativos escassos (Bitcoin, ouro) que o governo não consegue imprimir

A ressalva honesta

Longo prazo

é uma aposta estrutural que pode ficar “no vermelho” por muito tempo · não reage automaticamente à dívida


O número que assusta: US$ 40 trilhões

Comecemos pela dimensão do problema. A dívida do governo dos Estados Unidos ultrapassou os US$ 40 trilhões em agosto. Para se ter ideia da velocidade, esse número era de US$ 36 trilhões um ano antes, e de US$ 19 trilhões uma década atrás. O último trilhão foi acumulado em menos de cinco meses. É uma bola de neve que cresce cada vez mais rápido.

O que torna esse número especialmente preocupante não é só o tamanho, mas o peso dos juros. Com a dívida tão grande e os juros altos, o custo de simplesmente pagar os juros dessa dívida explodiu. Um dado impressionante: nos primeiros dez meses do ano fiscal, os gastos dos EUA só com juros já superaram os gastos com saúde pública, tornando-se a segunda maior despesa do governo, atrás apenas da previdência social. O país está, literalmente, gastando uma fortuna para rolar o que deve.

Esse é o pano de fundo que dá origem à tese. Quando um governo se vê preso numa dívida que não para de crescer e cujos juros consomem uma fatia cada vez maior do orçamento, o mercado começa a se perguntar: como isso vai ser resolvido? E a resposta que muitos investidores temem é a mais antiga da história: desvalorizar a moeda para diluir a dívida.


O que é o “debasement trade”

“Debasement” é uma palavra em inglês que significa “desvalorização” ou “aviltamento”. O “debasement trade” é a estratégia de investir pensando que o valor do dinheiro tradicional (as moedas como o dólar) vai ser corroído ao longo do tempo. A lógica é a seguinte: para lidar com uma dívida impagável, a tendência é que o governo e o banco central, mais cedo ou mais tarde, sejam levados a “imprimir” mais dinheiro ou a segurar os juros artificialmente baixos, o que reduz o valor de cada unidade da moeda.

Diante disso, o investidor que quer se proteger foge do dinheiro que está sendo desvalorizado e busca ativos escassos, aqueles cuja quantidade não pode ser aumentada por decisão de nenhum governo. Historicamente, o rei dessa categoria é o ouro, que existe em quantidade limitada na natureza. Agora, o Bitcoin entrou nessa mesma categoria, e por um motivo poderoso: sua oferta é fixa e programada, limitada a 21 milhões de unidades para sempre. Nenhum governo pode criar mais bitcoins, assim como não pode criar mais ouro. É por isso que Wall Street passou a agrupar os dois no mesmo “balde” de proteção, tratando o Bitcoin como uma espécie de “ouro digital”.

Essa tese conecta diretamente com temas que já exploramos aqui: a “repressão financeira” (o governo segurando os juros para aliviar a dívida) e o “cabo de guerra” entre o Tesouro, o Fed e o mercado. O debasement trade é, no fundo, a resposta dos investidores a todo esse cenário: se o dinheiro tradicional está sob pressão, a saída é buscar o que é escasso.

⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e descreve uma tese de mercado, sem prever a direção do preço de nenhum ativo. Opiniões de terceiros citadas são externas, não recomendações. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.


As vozes de peso por trás da tese

O que dá força a essa discussão não é o entusiasmo de fãs de cripto, mas o fato de que ela partiu de algumas das mentes mais respeitadas das finanças tradicionais. Vale conhecer quem está falando.

Quem defende a tese da dívida (vozes institucionais)

Quem O que diz (opinião de terceiro)
Ray Dalio Lendário investidor, recomenda ouro e uma parcela de Bitcoin, alertando que os EUA gastam bem mais do que arrecadam
JPMorgan O maior banco dos EUA agrupou Bitcoin e ouro como o “debasement trade” e vê o Bitcoin descontado frente ao ouro
BlackRock A maior gestora do mundo diz que, quando o medo da dívida volta às manchetes, isso tende a beneficiar Bitcoin e ouro
Citadel (Ken Griffin) Descreveu investidores tentando “desdolarizar” suas carteiras, reduzindo a dependência do dólar

Além desses, gestores na Europa relataram estar comprados em ativos como o franco suíço, o ouro e o Bitcoin justamente como proteção contra a dívida americana. Houve até declarações mais extremas e provocativas, como a de um executivo que afirmou que o Bitcoin “poderia ir ao infinito” caso a crise da dívida do dólar se agrave. É importante tratar declarações assim com o devido ceticismo: são opiniões de partes interessadas, muitas vezes exageradas, e não previsões confiáveis. O valor de citá-las não está em levá-las ao pé da letra, mas em mostrar como a narrativa da dívida ganhou tração até nos círculos mais sofisticados. O que importa é o raciocínio estrutural, não os números mágicos que alguns lançam.


A honestidade: não é uma resposta automática

Aqui está a parte que uma análise séria não pode omitir, e que separa a FDM do discurso fácil. A tese da dívida é sólida e conta com defensores de peso, mas ela não é uma fórmula mágica que faz o Bitcoin subir sempre que a dívida cresce. A realidade é mais complexa, e é honesto mostrá-la.

A prova está no próprio ano de 2026. A dívida bateu recorde atrás de recorde, mas, durante boa parte do ano, tanto o Bitcoin quanto o ouro passaram por dificuldades, chegando a cair. Por quê? Porque a dívida não é a única força que atua no mercado. Um Fed mais duro e um dólar mais forte, em certos períodos, pesaram mais do que a preocupação com a dívida, pressionando os ativos escassos. Ou seja, a tese pode estar correta no longo prazo e, ainda assim, “não funcionar” por meses ou até anos no curto prazo.

É por isso que os próprios defensores da tese a descrevem como uma “aposta de longo horizonte”. Como resumiu uma análise, “apostas de longo prazo podem ficar no vermelho por muito tempo antes de se resolverem”. A dívida cria uma pressão de fundo, estrutural, a favor dos ativos escassos, mas o momento em que essa pressão se traduz em preço é imprevisível, e sofre a interferência de mil outros fatores de curto prazo. Confundir uma tendência estrutural de longo prazo com uma previsão de curto prazo é um erro que custa caro. A dívida é um vento de fundo, não um gatilho imediato.


O que isso significa para o investidor brasileiro

Para o investidor brasileiro, essa discussão oferece uma das lentes mais valiosas para entender o Bitcoin no longo prazo. Nós, brasileiros, conhecemos bem, por experiência própria, o que é ver o dinheiro perder valor com a inflação e a má gestão fiscal. O que a tese do debasement mostra é que essa mesma preocupação chegou ao coração do sistema financeiro global, à maior economia e à principal moeda do mundo. Entender isso ajuda a enxergar o Bitcoin não como uma aposta especulativa da moda, mas como uma possível resposta a um problema estrutural e antigo: a tendência dos governos de corroer o valor do dinheiro.

A leitura da Formadores é que a tese da dívida é, provavelmente, o argumento de longo prazo mais robusto e sofisticado a favor do Bitcoin, mais profundo que qualquer rali movido a fatores técnicos. Ela dá um “porquê” fundamental para a existência de um ativo escasso e independente de governos. Mas, justamente por respeitarmos essa tese, fazemos questão de apresentá-la com a maturidade que ela merece: como uma força estrutural de longo prazo, e não como uma promessa de valorização para as próximas semanas. Os dois lados, o potencial da tese e a imprevisibilidade do curto prazo, precisam ser mantidos na cabeça ao mesmo tempo.

Na prática, o que essa compreensão oferece não é um sinal de compra ou venda, e nós não vamos, como sempre, dizer para onde o preço vai. O que ela oferece é contexto, a capacidade de entender por que o Bitcoin existe e qual problema ele se propõe a resolver. Para quem investe pensando em anos, é esse entendimento profundo que sustenta a convicção nos momentos difíceis, e que evita tanto a euforia quanto o pânico. Saber que há uma lógica macroeconômica robusta por trás do ativo, defendida pelas maiores mentes das finanças, mas mantendo os pés no chão sobre os prazos, é o que transforma um investidor reativo num investidor consciente. E é essa consciência, muito mais do que o preço de um dia, que constrói patrimônio ao longo do tempo.

O que resume o tema: a dívida dos EUA passou de US$ 40 trilhões, e as maiores mentes das finanças, de Ray Dalio ao JPMorgan e à BlackRock, voltaram a agrupar o Bitcoin e o ouro como proteção contra a desvalorização do dólar, o chamado “debasement trade”. A lógica é poderosa: diante de uma dívida impagável, os investidores buscam ativos escassos que o governo não pode imprimir. Mas a honestidade exige lembrar que essa é uma aposta de longo prazo, que pode ficar “no vermelho” por bastante tempo, e não uma resposta automática. Para quem pensa em anos, o valor está em entender esse “porquê” estrutural, sem confundi-lo com uma promessa de curto prazo. É o contexto, e não o palpite, que sustenta a convicção.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e opinativo, não constituindo recomendação de investimento, oferta, solicitação ou garantia de rentabilidade em relação a bitcoin, criptoativos ou quaisquer outros ativos. As informações, análises, opiniões e projeções aqui contidas têm finalidade meramente informativa e não substituem avaliação própria, independente e criteriosa por parte do leitor. Desempenhos passados não representam garantia de resultados futuros. Assim, toda decisão tomada com base neste conteúdo é de responsabilidade exclusiva do leitor, não podendo a Formadores de Mercado ser responsabilizada por eventuais perdas, danos ou prejuízos decorrentes de seu uso ou interpretação.