30 de setembro de 2026 · O mês de setembro chega ao fim com o Bitcoin cravando duas marcas que, juntas, contam uma história interessante sobre a sua força relativa. A primeira é sazonal: o Bitcoin fechou setembro no positivo, quebrando uma das superstições mais conhecidas do mercado, a “maldição do setembro vermelho”, e fazendo isso pelo quarto ano seguido. A segunda é comparativa e talvez ainda mais reveladora: ao longo deste trimestre, o Bitcoin superou o ouro, o índice de ações S&P 500 e praticamente todos os grandes ativos, e fez isso justamente num momento em que o ouro, o porto seguro tradicional, sofreu. E o cenário torna esse desempenho ainda mais notável, porque tudo isso aconteceu com os juros de longo prazo nos Estados Unidos atingindo as máximas em quase duas décadas, um ambiente teoricamente hostil para ativos de risco. Como o Bitcoin se saiu bem em condições tão adversas, e o que isso significa? Esta newsletter explica as duas marcas, o que elas revelam sobre a maturação do Bitcoin e a tese do “ouro digital”, e, com a honestidade de sempre, por que desempenho passado não é garantia de nada. Como sempre deixamos claro, não vamos aqui prever para onde o preço vai, e sim entender o que aconteceu e o que isso sugere.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
Setembro do Bitcoin
Positivo
setembro fechou no verde, quebrando a “maldição” do mês pelo 4º ano seguido, mesmo após o recuo recente
Bitcoin no trimestre
+40%
superou o ouro, o S&P 500 e todos os grandes ativos do período · uma força relativa notável
O ambiente adverso
Juros no topo
os juros de 30 anos dos EUA atingiram a máxima em quase duas décadas, um cenário teoricamente hostil ao risco
A ressalva honesta
Passado ≠ futuro
um setembro forte não garante um bom outubro · em 2024, um setembro verde foi seguido de um trimestre de queda
O fim da “maldição do setembro vermelho”
Existe no mercado uma crença conhecida como “maldição do setembro vermelho”. A ideia é que setembro é, historicamente, um mês ruim para o Bitcoin. E os dados dão base a isso: o Bitcoin fechou setembro no vermelho em oito dos treze anos entre 2013 e 2025, incluindo uma sequência de seis quedas seguidas, de 2017 a 2022. A média histórica de retorno de setembro é negativa, a pior de todos os meses do ano. Curiosamente, isso não é exclusividade do cripto: até o mercado de ações americano, o S&P 500, tem setembro como um mês historicamente fraco.
Mas 2026 está quebrando esse padrão. O Bitcoin fechou setembro no positivo, mesmo depois de um recuo nos últimos dias do mês que reduziu o ganho. Não foi o melhor setembro da história (o recorde segue sendo o de 2024), mas o importante é o sinal: foi o quarto setembro verde consecutivo, a mais longa sequência positiva do mês nos dados disponíveis. Ou seja, o “pior mês do ano” não se confirma como pior há quatro anos. A “maldição”, ao que parece, está sendo quebrada.
O que explica essa mudança? Aqui é preciso cautela, mas há uma hipótese razoável: a crescente presença institucional. Padrões sazonais como esse costumavam ser reforçados por comportamentos de investidores de varejo, mais emocionais e previsíveis. À medida que grandes instituições, com estratégias diferentes, passam a dominar o mercado, esses padrões antigos tendem a se enfraquecer. Ou seja, a quebra da maldição pode ser mais um sintoma da maturação do Bitcoin como classe de ativo, um tema que viemos explorando. Mas, como veremos, tirar conclusões definitivas de padrões sazonais é justamente onde mora o perigo.
A vitória sobre o ouro no trimestre
A segunda marca é ainda mais reveladora, porque envolve uma comparação direta com o principal concorrente do Bitcoin na tese de “reserva de valor”: o ouro. Ao longo deste trimestre, o Bitcoin subiu mais de 40%, deixando para trás não só o ouro, mas também o índice de ações S&P 500 e praticamente todos os grandes ativos do período. Vale ver a comparação.
O desempenho no trimestre (dados de mercado)
| O ativo | Como se comportou no período |
|---|---|
| Bitcoin | Subiu mais de 40% no trimestre, o melhor desempenho entre os grandes ativos |
| Ouro | Ficou para trás e chegou a cair perto de 4% num único dia, pressionado pela alta dos juros |
| Ações (S&P 500) | Também ficou bem atrás do Bitcoin no desempenho do trimestre |
O detalhe mais interessante é o contexto. O ouro caiu justamente porque os juros de longo prazo dispararam para a máxima em quase duas décadas. Isso acontece porque o ouro não paga juros: quando a renda fixa passa a render muito, o “custo de oportunidade” de segurar ouro aumenta, e parte dos investidores migra. O Bitcoin, teoricamente, deveria sofrer da mesma lógica, e ainda mais, por ser mais volátil. E, no entanto, ele resistiu muito melhor, caindo bem menos que o ouro nos dias de maior pressão.
Essa resiliência relativa, o Bitcoin aguentando melhor que o próprio ouro num ambiente adverso, é o que chamou a atenção dos analistas. Ela dá força, ao menos neste período, à tese do “ouro digital” que viemos construindo nas newsletters sobre a dívida de US$ 40 trilhões e sobre o JPMorgan. É como se o Bitcoin estivesse, neste trimestre, se comportando mais como uma reserva de valor robusta do que como um ativo de risco frágil.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é informativo e analisa dados de mercado passados, sem prever a direção futura do preço de nenhum ativo. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
O que as duas marcas revelam juntas
Quando juntamos as duas marcas, o quadro que emerge é o de força relativa. De um lado, o Bitcoin quebrou um padrão sazonal histórico de fraqueza. De outro, superou o ouro e as ações num ambiente de juros altos, que deveria prejudicá-lo. As duas coisas, somadas, sugerem que o Bitcoin passou por este trimestre difícil com uma resiliência que ele talvez não tivesse em ciclos anteriores.
Isso conversa diretamente com a tese de maturação que viemos defendendo. Um ativo que resiste melhor à adversidade, que quebra padrões antigos de fragilidade e que compete de igual para igual com o ouro em momentos de estresse, está se comportando como um ativo mais maduro. A explicação de fundo é a mesma que já demos: a base de investidores mudou, de um varejo emocional para uma presença institucional crescente (ETFs, tesourarias, grandes gestores), e isso tende a tornar o comportamento do ativo mais estável e resiliente. As duas marcas deste mês são, nessa leitura, evidências dessa transformação em curso.
Mas atenção: dizer que o Bitcoin mostrou força relativa neste período é uma constatação sobre o passado, não uma previsão sobre o futuro. E é aqui que a análise honesta precisa entrar com força, para não transformar um bom trimestre numa promessa que ninguém pode fazer.
A honestidade: desempenho passado não garante futuro
Esta é a parte que separa uma análise séria de um discurso de empolgação. Por mais impressionantes que sejam as duas marcas, elas dizem respeito ao que já aconteceu, e o mercado é cheio de exemplos de que o passado recente não determina o futuro próximo.
O exemplo mais eloquente está no próprio histórico. No ano passado, em 2025, o Bitcoin também teve um setembro verde e positivo. E o que veio depois? Um outubro negativo e um quarto trimestre de forte queda, com o preço recuando mais de 20%. Ou seja, um setembro forte não só não garante um bom outubro, como já foi seguido, num passado bem recente, exatamente do contrário. Padrões sazonais são curiosidades estatísticas interessantes, mas apostar dinheiro neles é um erro, porque eles falham com frequência.
O mesmo vale para a comparação com o ouro. O Bitcoin superou o ouro neste trimestre, mas a relação entre os dois é instável: houve períodos, inclusive no começo deste mesmo ano de 2026, em que o ouro brilhou muito mais que o Bitcoin. A liderança de um sobre o outro vai e volta conforme o momento. Um trimestre de vitória não estabelece uma regra permanente. Por isso, mantemos os pés no chão: as marcas são reais e positivas, mas são fotografias de um período, não um filme do futuro. E o cenário à frente segue desafiador, com juros altos e um quarto trimestre que, historicamente, traz volatilidade.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, essas duas marcas oferecem um aprendizado que vai além dos números. A quebra da maldição de setembro e a vitória sobre o ouro são, acima de tudo, evidências a favor da tese de que o Bitcoin está amadurecendo como ativo. Isso é um sinal estrutural relevante, muito mais importante do que a comemoração de um mês positivo. Enxergar essa transformação de fundo, o Bitcoin se tornando mais resiliente e mais comparável a uma reserva de valor, é o que ajuda a entender o ativo no longo prazo.
A leitura da Formadores é que devemos valorizar o sinal estrutural (a maturação) sem cair na armadilha de extrapolar o desempenho recente para o futuro. As duas coisas convivem: é possível reconhecer que o Bitcoin teve um trimestre notável e mostrou força relativa, e, ao mesmo tempo, manter a humildade de saber que isso não garante o que vem pela frente. Aliás, é justamente nos momentos de bom desempenho que o investidor precisa de mais disciplina, para não confundir uma boa sequência com uma certeza, nem se deixar levar pela euforia de manchetes e de previsões grandiosas que sempre surgem nesses momentos.
Na prática, o que essas marcas oferecem não é um sinal de compra, e nós não vamos, como sempre frisamos, dizer se o preço vai subir ou cair daqui pra frente. O que elas oferecem é compreensão: a evidência de que a tese de maturação do Bitcoin tem se confirmado nos dados, mesmo em ambientes adversos. Para quem investe pensando em anos, esse entendimento estrutural, combinado com a humildade sobre a imprevisibilidade do curto prazo, é o que sustenta uma estratégia coerente. Comemore os avanços com serenidade, entenda o que eles significam, mas nunca troque a disciplina de longo prazo pela empolgação de um bom mês. É essa combinação de otimismo informado e pés no chão que constrói patrimônio de verdade.
O que resume o momento: o Bitcoin fecha setembro com duas marcas notáveis, um mês positivo que quebra a antiga “maldição do setembro vermelho” pelo quarto ano seguido, e uma vitória sobre o ouro e as ações no trimestre, num ambiente de juros nas máximas. Juntas, elas reforçam a tese de que o ativo está amadurecendo, ficando mais resiliente e mais parecido com uma reserva de valor. Mas a lição mais importante é a humildade: desempenho passado não garante futuro, e um bom mês já foi seguido de trimestres ruins no passado recente. Valorize o sinal estrutural, mantenha os pés no chão sobre os prazos, e nunca confunda uma boa sequência com uma certeza. É essa serenidade que atravessa os ciclos.
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