Formadores de Mercado

Começou o “Uptober”: Por Que Outubro é o Mês Favorito do Bitcoin (e Por Que Você Não Deve Apostar Nisso)

1º de outubro de 2026 · Na nossa última edição, falamos sobre como o Bitcoin quebrou a “maldição do setembro vermelho”, a fama de setembro ser o pior mês do ano. Pois agora entramos no mês que tem a reputação exatamente oposta: outubro, carinhosamente apelidado pelo mercado de “Uptober”, uma junção de “up” (subir, em inglês) com “october” (outubro). A ideia é que outubro é, historicamente, o mês mais forte e confiável do Bitcoin, e os números parecem impressionantes à primeira vista: dependendo da fonte, o Bitcoin fechou outubro no positivo em cerca de 10 dos últimos 13 anos, com uma média de alta que algumas análises colocam perto de 20% ou até mais. Com esse histórico, não é de espantar que, a cada começo de outubro, surja uma onda de otimismo e previsões animadoras. Mas aqui na Formadores gostamos de olhar por trás dos números bonitos. E, quando fazemos isso, descobrimos que a história do “Uptober” é bem mais nuançada do que a manchete sugere, e que confiar cegamente nela pode ser um erro. Esta newsletter explica o que é a sazonalidade de outubro, por que os números médios enganam, por que o próprio ano passado quebrou o padrão, e como o investidor maduro deve enxergar esses padrões de calendário. Como sempre, não vamos aqui prever se o mês vai subir ou cair, e sim ensinar a interpretar os dados com rigor.

Tempo de leitura: ~6 min

O histórico de outubro

10 de 13

anos positivos entre 2013 e 2025 · a maior taxa de acerto de qualquer mês do calendário para o Bitcoin

A armadilha

Média ≠ típico

a “média” de ~20% é puxada por poucos anos excepcionais · a mediana, mais realista, fica bem menor

O padrão falhou

Outubro de 2025

o Bitcoin caiu cerca de 4%, quebrando uma sequência de sete outubros positivos seguidos

A lição central

Padrão ≠ garantia

a sazonalidade pode reforçar uma tendência, mas não resiste a um choque macro · não é sinal de operação


O que é o “Uptober” e de onde vem a fama

Comecemos pelo conceito. “Sazonalidade” é a tendência de um ativo se comportar de forma parecida em determinadas épocas do ano. No caso do Bitcoin, outubro ganhou a fama de ser o seu melhor mês, a ponto de receber o apelido de “Uptober”. E a reputação tem base nos dados: olhando o histórico de 2013 a 2025, o Bitcoin fechou outubro no positivo em cerca de 10 desses 13 anos. É a maior taxa de acerto de qualquer mês do calendário, o oposto de setembro, que era o pior.

O que explicaria esse bom desempenho de outubro? Existem algumas hipóteses razoáveis. Uma é o chamado “efeito de recuperação”: depois de um setembro historicamente fraco, outubro seria uma espécie de alívio e retomada. Outra é a chegada do quarto trimestre, quando grandes investidores institucionais costumam ajustar suas carteiras e podem aumentar a exposição. E há até uma teoria mais curiosa: a de que o próprio apelido “Uptober” virou uma “profecia autorrealizável”, com tantos investidores esperando a alta que eles mesmos a provocam, ao comprar antecipadamente.

Seja qual for a explicação, o fato é que o “Uptober” se tornou uma das narrativas sazonais mais populares do mercado cripto. E, todo começo de outubro, ela volta a circular com força, alimentando o otimismo. O problema é que, quando olhamos os números com mais cuidado, a história fica bem menos simples do que a manchete sugere.


A armadilha dos números: média vs. mediana

Aqui está um conceito estatístico simples, mas poderoso, que todo investidor deveria dominar: a diferença entre a “média” e a “mediana”. E ela é a chave para entender por que os números do Uptober podem enganar.

A “média” soma todos os resultados e divide pelo número de anos. O problema é que a média é facilmente distorcida por valores extremos. Imagine uma sala com dez pessoas de renda normal e, de repente, entra um bilionário: a “renda média” da sala dispara, mas isso não descreve a realidade de quase ninguém ali. Com o Uptober acontece algo parecido. A média de alta de outubro, que algumas fontes colocam perto de 20% ou mais, é puxada para cima por poucos anos excepcionais, de altas gigantescas. A maioria dos outubros teve ganhos bem mais modestos.

É aí que entra a “mediana”, o valor do meio, que ignora os extremos e descreve melhor o resultado “típico”. E a mediana de outubro, embora positiva, costuma ser bem menor que a média, na casa de 11% a 15%, dependendo do levantamento. Ou seja, o número que de fato representa um outubro comum é bem mais modesto do que a média espetacular que aparece nas manchetes. Como alertou uma análise, o Uptober “não ganhou o nome por causa de vários outubros ótimos, mas de alguns poucos excepcionais”. Confiar na média é superestimar o que normalmente acontece.

⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e analisa dados históricos, que não preveem o futuro. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.


A prova de que o padrão falha: outubro de 2025

Se a armadilha dos números já pede cautela, o exemplo mais recente da história prega o prego final no caixão do excesso de confiança. No ano passado, em outubro de 2025, o “Uptober” simplesmente não aconteceu. O Bitcoin fechou o mês em queda de cerca de 4%, quebrando uma impressionante sequência de sete outubros positivos seguidos.

E o detalhe mais importante é o porquê da falha. Em outubro de 2025, havia até fluxo de dinheiro entrando nos fundos de Bitcoin, um fator positivo. Mas tensões comerciais entre Estados Unidos e China, somadas a grandes liquidações no mercado, derrubaram o preço mesmo assim. A lição é cristalina: a sazonalidade pode até reforçar uma tendência que já existe, mas ela não tem força para resistir a um choque macroeconômico. Quando um evento grande acontece no mundo real, o calendário simplesmente não importa.

Esse episódio recente é a prova viva de que padrões sazonais são tendências estatísticas, não leis da natureza. Eles descrevem o que aconteceu com mais frequência no passado, mas não garantem o que vai acontecer no futuro. Apostar dinheiro num “Uptober” garantido é ignorar que, na vez mais recente, ele falhou, e falhou por razões que o calendário não previa nem controlava.


Para que a sazonalidade serve (e para que não)

Então, se não dá para confiar cegamente, a sazonalidade é inútil? Não, mas é preciso entender o seu lugar correto. Ela é uma ferramenta de contexto, não um sinal de operação. Vale resumir o que ela pode e o que não pode fazer.

O que a sazonalidade pode e não pode fazer

O que ela pode fazer O que ela NÃO pode fazer
Dar um contexto histórico sobre o comportamento típico do ativo em cada época Prever o que vai acontecer neste ano específico, que depende de mil outros fatores
Reforçar uma leitura que já se apoia em outros fundamentos mais sólidos Servir, sozinha, como motivo para comprar ou vender um ativo

A regra de ouro é esta: a sazonalidade só tem valor como uma informação de fundo, somada a outras análises, e nunca como um gatilho isolado de decisão. Um investidor sério não compra Bitcoin “porque é outubro”. Ele pode, no máximo, notar que outubro tem um histórico favorável e colocar isso como mais uma peça, pequena, num quebra-cabeça muito maior, que inclui o cenário macro, os fluxos de mercado e a sua própria estratégia. Dar à sazonalidade um peso maior do que isso é trocar a análise pela superstição.


O que isso significa para o investidor brasileiro

Para o investidor brasileiro, a lição do “Uptober” vai muito além de outubro. Ela é um treino de pensamento crítico, uma habilidade que vale para a vida inteira de investimentos. O mercado cripto é fértil em narrativas sedutoras e números que parecem mágicos, e aprender a desconfiar deles, a perguntar “esse número médio esconde o quê?” e “esse padrão já falhou alguma vez?”, é uma das defesas mais poderosas contra decisões ruins.

A leitura da Formadores é que, tanto no caso da “maldição de setembro” quanto no da “bênção de outubro”, a postura correta é a mesma: ceticismo saudável. É interessante conhecer esses padrões, eles fazem parte da cultura do mercado e dão contexto. Mas é perigoso tomá-los como certezas. Repare na simetria: na edição passada, mostramos que a maldição de setembro falhou por quatro anos seguidos; agora, mostramos que a bênção de outubro falhou no ano passado. Os dois lados do calendário provam a mesma coisa, que padrões sazonais são frágeis e não devem guiar decisões sozinhos.

Na prática, o que isso ensina não é “compre em outubro” nem “desconfie de outubro”, e nós, como sempre, não vamos dizer para onde o preço vai. O que ensinamos é a mentalidade: construa sua estratégia sobre fundamentos sólidos e sobre o seu perfil de investidor, não sobre apelidos de meses ou estatísticas que enganam. Para quem investe pensando em anos, um bom ou mau outubro é apenas um capítulo numa história muito mais longa. O que constrói patrimônio não é tentar surfar a sazonalidade de um mês, e sim a disciplina e a compreensão que atravessam todos os meses, os bons e os ruins, com a mesma serenidade. E desenvolver o pensamento crítico para não cair em narrativas fáceis é parte essencial dessa jornada.

O que resume o tema: outubro chega com a fama de “Uptober”, o mês mais forte do Bitcoin, e o histórico de fato mostra 10 altas em 13 anos. Mas, por trás dos números bonitos, há armadilhas: a média espetacular é puxada por poucos anos excepcionais, a mediana é bem mais modesta, e, no ano passado, o padrão simplesmente falhou, com o Bitcoin caindo diante de um choque macro. A lição, igual à de setembro, é o ceticismo saudável: padrões sazonais são contexto interessante, nunca garantia. Para quem pensa em anos, o segredo não é adivinhar o mês, e sim manter a disciplina e o pensamento crítico que atravessam todos eles. Isso, sim, constrói patrimônio.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e opinativo, não constituindo recomendação de investimento, oferta, solicitação ou garantia de rentabilidade em relação a bitcoin, criptoativos ou quaisquer outros ativos. As informações, análises, opiniões e projeções aqui contidas têm finalidade meramente informativa e não substituem avaliação própria, independente e criteriosa por parte do leitor. Desempenhos passados não representam garantia de resultados futuros. Assim, toda decisão tomada com base neste conteúdo é de responsabilidade exclusiva do leitor, não podendo a Formadores de Mercado ser responsabilizada por eventuais perdas, danos ou prejuízos decorrentes de seu uso ou interpretação.