7 de outubro de 2026 · Imagine um futuro em que programas de inteligência artificial não apenas conversam e escrevem, mas fazem compras sozinhos: contratam poder de computação, compram dados, pagam por serviços, tudo de forma autônoma, sem um humano clicando em “confirmar”. Esse futuro, chamado de “economia de agentes”, está mais próximo do que parece, e levanta uma pergunta fascinante: que tipo de dinheiro essas máquinas vão usar? A resposta a essa pergunta, surpreendentemente, pode envolver o Bitcoin, e quem está dizendo isso não é um entusiasta de cripto, mas a BlackRock, a maior gestora de investimentos do mundo, com mais de US$ 15 trilhões sob gestão. Num relatório recente intitulado “A Economia Nativa de Máquinas”, a BlackRock argumenta que a disseminação da IA pode se tornar uma fonte enorme e pouco percebida de demanda por ativos digitais. E há um detalhe que chamou a atenção de todo o mercado: num estudo citado no relatório, quando os modelos de IA foram questionados sobre onde “guardar valor”, eles escolheram o Bitcoin na grande maioria das vezes. Esta newsletter explica essa tese visionária, o que o estudo realmente mostrou, e, com a honestidade de sempre, por que isso ainda é uma hipótese de futuro, e não uma realidade do presente. Como sempre, não vamos aqui prever para onde o preço vai, e sim entender uma ideia que pode moldar o futuro do dinheiro.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
Quem propôs a tese
BlackRock
a maior gestora do mundo, com mais de US$ 15 trilhões sob gestão, no relatório “A Economia Nativa de Máquinas”
A IA para guardar valor
79,1%
das vezes os modelos de IA escolheram o Bitcoin como reserva de valor, num estudo citado pela BlackRock
A IA para gastar
Stablecoins
para pagamentos do dia a dia, as máquinas preferiram as stablecoins (moedas atreladas ao dólar)
A ressalva honesta
Simulação
o estudo foi em cenários simulados, de um grupo pró-Bitcoin · na vida real, a economia de agentes ainda é minúscula
A “economia de agentes”: quando o software paga sozinho
Para entender a tese, primeiro é preciso entender o conceito de “agente de IA”. Diferente de um assistente que só responde perguntas, um agente de IA é um programa capaz de executar tarefas de forma autônoma, tomando decisões e agindo no mundo digital sem supervisão humana constante. E, cada vez mais, essas tarefas envolvem transações: um agente pode precisar comprar um conjunto de dados, pagar por uma consulta a outro programa, ou alugar poder de processamento numa nuvem, tudo isso sozinho e em altíssima velocidade.
E aqui está o problema que a BlackRock identificou: o sistema financeiro atual não foi feito para isso. Cartões de crédito e transferências bancárias exigem identidade, confirmações manuais, têm horários de funcionamento e cobram taxas que tornam inviáveis pagamentos minúsculos, de frações de centavo. Um software que precisa fazer milhares de micropagamentos por segundo, a qualquer hora, não consegue operar com os trilhos financeiros tradicionais. As máquinas precisam de um “dinheiro nativo de máquinas”, feito para a velocidade e a escala do software.
É aí que entra a blockchain. As redes de cripto funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, não exigem identidade humana para operar, e permitem transações programáveis e de valor muito baixo. Em outras palavras, a infraestrutura do cripto parece ter sido desenhada, quase por acaso, exatamente para o que a economia das máquinas vai precisar. Essa é a base da tese da BlackRock.
A tese da BlackRock: gastar e poupar de forma diferente
O relatório da BlackRock propõe que, nessa economia de máquinas, diferentes ativos digitais cumpririam funções diferentes. A ideia central é uma divisão de tarefas entre dois tipos de dinheiro, cada um para um uso.
A divisão de funções na economia das máquinas
| O ativo | A função que cumpriria |
|---|---|
| Stablecoins (gastar) | O “dinheiro do dia a dia” das máquinas: estáveis e rápidas, ideais para os pagamentos constantes entre softwares |
| Bitcoin (poupar) | A “poupança” das máquinas: um ativo de oferta fixa para guardar valor no longo prazo, como uma reserva |
| Computação tokenizada | Uma nova classe de ativo: contratos sobre poder de processamento, que poderiam ser comprados e negociados |
A lógica é intuitiva quando se pensa em como nós, humanos, usamos o dinheiro. Para os gastos do dia a dia, queremos algo estável e prático, ninguém quer pagar o café com um ativo que oscila muito. Para isso, as stablecoins, atreladas ao dólar, são perfeitas. Já para guardar valor no longo prazo, protegendo-o da desvalorização, buscamos um ativo escasso. E é nesse papel que o Bitcoin, com sua oferta fixa e limitada a 21 milhões de unidades, se encaixaria, funcionando como a “poupança” ou a “reserva” das máquinas. É a tese do “ouro digital” que viemos construindo, agora aplicada a um mundo de agentes de IA.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e descreve uma tese de mercado sobre o futuro, sem prever a direção do preço de nenhum ativo. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
O estudo: por que a IA “escolheu” o Bitcoin
O dado que mais repercutiu vem de um estudo que a BlackRock citou como “apoio preliminar” à sua tese. Nesse experimento, pesquisadores testaram 36 modelos de inteligência artificial de ponta, submetendo-os a mais de nove mil cenários abertos sobre dinheiro, sem sugerir nenhuma resposta. A pergunta central era, em essência: onde você guardaria valor, e o que usaria para gastar?
Os resultados foram chamativos. Quando o tema era guardar valor no longo prazo, os modelos de IA escolheram o Bitcoin em 79,1% das vezes. Quando o tema era gastar, a preferência virou para as stablecoins, em 53,2% dos casos. E, somando tudo, mais de 90% das respostas favoreceram dinheiro “nativo digital” (cripto) em vez do dinheiro tradicional de bancos. É como se as máquinas, livres dos hábitos e das emoções humanas, chegassem por lógica pura à mesma conclusão que muitos investidores: para poupar, escassez; para gastar, estabilidade.
É um resultado instigante, porque sugere que a preferência pelo Bitcoin como reserva de valor pode não ser só uma “crença” de seus fãs, mas uma conclusão a que até uma inteligência artificial, analisando as propriedades dos ativos, tende a chegar. Mas, por mais fascinante que isso seja, é aqui que precisamos aplicar o nosso ceticismo saudável, porque o estudo tem limitações importantes que não podem ser ignoradas.
A honestidade: uma hipótese de futuro, não uma realidade
Fiéis ao nosso compromisso, precisamos separar a narrativa empolgante dos fatos concretos. A tese é poderosa e vem de uma fonte de peso, mas ela descreve um futuro possível, não o presente. E há várias ressalvas que exigem os pés no chão.
Primeiro, sobre o estudo: ele foi feito em cenários simulados, não com dinheiro de verdade, e foi produzido por um instituto declaradamente pró-Bitcoin. A própria BlackRock teve o cuidado de chamá-lo de “apoio preliminar”, um sinal de cautela. Uma IA “dizer” que escolheria Bitcoin numa simulação é muito diferente de agentes de IA de fato comprando Bitcoin em escala no mundo real. Segundo, e mais importante: a economia de agentes ainda é minúscula. Levantamentos de dados reais mostram que o volume de pagamentos genuinamente feitos por agentes de IA hoje é de poucos milhões de dólares, uma fração ínfima do mercado, e que, na prática, quase toda essa atividade usa stablecoins, não Bitcoin.
Ou seja, por enquanto, a parte da tese que tem alguma tração real é a das stablecoins como meio de pagamento, enquanto o papel do Bitcoin como “poupança das máquinas” permanece uma hipótese elegante, mas ainda não comprovada na prática. É fundamental não confundir uma projeção de futuro, por mais bem embasada que seja, com um fato consumado. A própria BlackRock enquadra tudo como uma “tese estrutural de adoção”, e faz questão de dizer que não é uma previsão de preço. Nós seguimos exatamente a mesma linha.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, essa tese oferece algo mais valioso do que uma dica de curto prazo: uma janela para o futuro e um exercício de pensamento. O simples fato de a maior gestora do mundo estar escrevendo relatórios sérios sobre agentes de IA usando Bitcoin e stablecoins mostra o quanto essas duas megatendências, a inteligência artificial e o cripto, estão começando a se cruzar. Entender esse cruzamento, mesmo que ele leve anos para se materializar, é enxergar para onde a tecnologia e as finanças podem estar caminhando.
A leitura da Formadores é que o maior valor dessa notícia é reforçar, por um ângulo novo e inesperado, a tese de fundo que viemos construindo: a de que o Bitcoin tem propriedades únicas como reserva de valor (escassez, independência de governos), que o tornam atraente em contextos muito diferentes, da proteção contra a dívida americana até, quem sabe, a poupança de máquinas autônomas. Quando funções de reserva de valor são atribuídas ao Bitcoin por investidores, por países e até por modelos de IA, isso diz algo sobre a solidez do argumento central, independentemente do preço de qualquer dia.
Na prática, o que isso oferece não é um sinal para comprar nada, e nós, como sempre, não vamos dizer para onde o preço vai. O que oferece é perspectiva e a disciplina de separar a visão de longo prazo da empolgação de curto prazo. É possível achar a tese da economia das máquinas fascinante e, ao mesmo tempo, manter a humildade de saber que ela ainda é uma hipótese distante, que pode ou não se concretizar. Essa capacidade de se entusiasmar com as ideias sem perder o ceticismo sobre os prazos é, talvez, a marca mais importante do investidor maduro. Para quem pensa em anos, acompanhar essas fronteiras com a mente aberta e os pés no chão é o que constrói, ao mesmo tempo, conhecimento e patrimônio.
O que resume o tema: a BlackRock, a maior gestora do mundo, propôs uma tese visionária, a de que os agentes de inteligência artificial, ao fazer pagamentos sozinhos, poderão usar stablecoins para gastar e Bitcoin para poupar. Um estudo citado mostrou a IA escolhendo o Bitcoin como reserva de valor em 79% das vezes, um dado instigante. Mas a honestidade exige lembrar que isso foi uma simulação, de um grupo pró-Bitcoin, e que a economia de máquinas ainda é minúscula na realidade. É uma hipótese de futuro fascinante, não um fato do presente. Para o investidor de longo prazo, vale entender a ideia, que reforça a tese do Bitcoin como reserva de valor, sem confundir uma visão de futuro com uma certeza. Entusiasmo com as ideias, ceticismo com os prazos.
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