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O CLARITY Act Baniria Trump de Lucrar Com Cripto Até 2029: Por Que Isso Ainda Não Foi Suficiente Para os Democratas

23 de julho de 2026 · Ontem, os republicanos do Senado, junto com a Casa Branca, divulgaram o texto atualizado do CLARITY Act, e ele traz algo que parecia impensável há poucas semanas: uma cláusula de ética que o próprio presidente Trump aceitou, proibindo altas autoridades federais, incluindo o presidente, de emitir ou patrocinar criptoativos com fins de remuneração até janeiro de 2029. O senador republicano Bernie Moreno chamou de “a linguagem de ética mais poderosa da história dos EUA” e pediu para ninguém acreditar nas “mentiras dos democratas de Washington”. A proibição tem dentes: o Departamento de Justiça poderia aplicar multas de até $250 mil por dia a quem violar. Como o próprio Trump embolsou mais de $1,2 bilhão em renda ligada a cripto no seu primeiro ano de volta à Casa Branca, a cláusula não é simbólica. Parecia, enfim, o fim do impasse que viemos acompanhando a semana toda. Mas não foi. Poucas horas depois, sete senadores democratas rejeitaram formalmente o draft. E o detalhe mais importante desta reviravolta é que o motivo da recusa mudou: já não é mais a ausência da cláusula de ética, e sim quem vai fiscalizá-la. Esta newsletter explica o que o novo texto diz, por que o obstáculo se deslocou, e o que isso significa para a janela que se fecha em 7 de agosto.

Tempo de leitura: ~6 min

A cláusula de ética

Até 2029

proíbe autoridades federais, Trump incluído, de emitir ou patrocinar cripto por remuneração · expira em 20 de janeiro de 2029 · multa de até $250 mil por dia

A reação democrata

7 contra

sete democratas rejeitaram o draft · alegam que “fica aquém” em ética, proteção ao consumidor e finanças ilícitas · foco agora no papel do DOJ

Renda cripto de Trump em 2025

$1,2 bi

renda ligada a cripto no primeiro ano de volta à Casa Branca · é o que deu urgência à disputa de ética · segundo divulgação financeira recente

Bitcoin hoje

~$65.500

recuou da máxima de $66.700 de ontem · petróleo e yields subindo · véspera do FOMC de 29/jul · odds do CLARITY recuaram com a rejeição


O que o novo texto diz sobre Trump e a cripto

O texto divulgado ontem pelos senadores Cynthia Lummis e Bernie Moreno, resultado de negociações com a Casa Branca, funde as versões dos comitês Bancário e de Agricultura do Senado e inclui, pela primeira vez, limites concretos sobre como presidentes e autoridades federais podem lucrar com cripto. A cláusula proíbe qualquer autoridade federal, seus cônjuges e funcionários, de emitir ou patrocinar um ativo digital enquanto estiverem no cargo.

O texto tem três características centrais. Primeiro, o poder de fiscalização civil fica com o Departamento de Justiça, que poderia processar exchanges que listem tokens proibidos e aplicar multas de até $250 mil por dia. Segundo, há uma cláusula de expiração: as regras de ética terminam em 20 de janeiro de 2029, ao meio-dia, exatamente quando o mandato atual de Trump se encerra. Terceiro, os reguladores teriam até um ano após a promulgação para implementar as regras.

A dimensão política é notável. Trump embolsou cerca de $1,2 bilhão em renda ligada a cripto apenas no primeiro ano de seu retorno à Casa Branca, segundo sua própria divulgação financeira. Aceitar uma cláusula que o proíbe de continuar patrocinando cripto com fins de remuneração, mesmo que temporária, é uma concessão real. Foi por isso que Moreno a chamou de “a linguagem de ética mais poderosa da história”, e por que o mercado, num primeiro momento, tratou o acordo como o destravamento final que faltava.


Por que o obstáculo se deslocou da ética para a fiscalização

Aqui está a virada mais interessante desta etapa. Durante mais de um ano, o obstáculo era a ausência de uma cláusula de ética. Os democratas exigiam a proibição, os republicanos resistiam. Agora que a cláusula existe e o próprio Trump a aceitou, o ponto de conflito se deslocou. A briga não é mais sobre ter ou não ter regra de ética, e sim sobre quem vai fiscalizá-la.

O texto entrega a fiscalização ao Departamento de Justiça, que responde ao próprio presidente. E é exatamente aí que os democratas travaram. A senadora Angela Alsobrooks, uma das duas democratas que já haviam apoiado o projeto na comissão, classificou como “nada sério” depender apenas do Departamento de Justiça para fazer valer as regras de ética, e disse que votaria contra o projeto se essa linguagem chegasse ao plenário. O argumento é direto: confiar a um órgão subordinado ao presidente a tarefa de fiscalizar o próprio presidente esvazia a regra na prática.

Além da fiscalização, os democratas apontam a cláusula de expiração em 2029 como insuficiente, já que ela coincide justamente com o fim do mandato de Trump, e levantam preocupações sobre proteção ao consumidor, finanças ilícitas, conflitos de interesse e integridade de mercado. Ou seja, a concessão da ética, embora significativa, apenas moveu a discussão para um novo conjunto de detalhes, sem encerrá-la.

⚠️ Aviso importante: este conteúdo é informativo e descreve um processo legislativo em andamento e sujeito a mudanças. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.


Os sete democratas e o que eles ainda pedem

No mesmo dia da divulgação do texto, sete senadores democratas assinaram uma declaração conjunta rejeitando o draft na forma atual. O grupo inclui nomes que vinham sendo considerados os votos mais alcançáveis pelos republicanos, o que torna a rejeição mais significativa.

Os sete democratas que rejeitaram o draft e o que pedem

Ponto de conflito O que o texto atual faz O que os democratas querem
Fiscalização da ética Deixa só o Departamento de Justiça, subordinado ao presidente Um mecanismo de fiscalização independente do Executivo
Prazo da regra Expira em janeiro de 2029, fim do mandato de Trump Regras permanentes, sem cláusula de expiração
Finanças ilícitas Regras que Warner e Cortez Masto consideram insuficientes Padrões mais rígidos de combate à lavagem e ao terrorismo
Proteção ao consumidor Considerada aquém pelos sete signatários Salvaguardas mais fortes para o investidor de varejo

Os sete democratas foram cuidadosos na retórica. Na declaração conjunta, disseram que o texto “fica aquém” de onde precisa estar em ética, proteção ao consumidor, finanças ilícitas, conflitos de interesse e integridade de mercado, mas acrescentaram que vêm trabalhando de boa-fé com os colegas republicanos e vão continuar para “levar isso até a linha de chegada”. Ou seja, é uma rejeição ao texto atual, não um abandono da negociação. A porta continua aberta, mas o acordo não está fechado.


A janela até 7 de agosto e a matemática dos votos

A matemática continua sendo o fator decisivo, e não mudou. O projeto precisa de 60 votos no Senado para superar o cloture, o que exige cerca de sete votos democratas, já que os republicanos têm por volta de 53 cadeiras. O problema é que os sete democratas que rejeitaram o draft ontem são justamente parte do grupo de onde esses votos precisariam sair. Enquanto a questão da fiscalização pelo Departamento de Justiça não for resolvida, esses votos não vêm.

O calendário aperta. O recesso do Senado começa na primeira semana de agosto, com 7 de agosto sendo o último dia útil de sessão. Isso deixa pouco mais de duas semanas para reconciliar o texto, conseguir os votos e realizar a votação de plenário. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que o Congresso está “na linha de 1 jarda”, uma metáfora do futebol americano para dizer que falta muito pouco, e pediu que os parlamentares aprovem a lei antes do recesso.

O reflexo disso nos mercados de aposta foi imediato. Depois de subir para perto de 43% a 55% quando Trump aceitou a cláusula, as odds de aprovação em 2026 recuaram novamente com a rejeição dos sete democratas, voltando para a faixa dos 38%. É o padrão que temos visto: cada avanço é seguido de um recuo, conforme o mercado recalibra a cada capítulo da negociação. O Bitcoin acompanhou, recuando da máxima de $66.700 de ontem para perto de $65.500 hoje, também pressionado pela alta do petróleo e dos juros.


O que isso significa para o investidor brasileiro

Para o investidor brasileiro, o desenvolvimento de hoje ensina a ler as manchetes do CLARITY Act com mais precisão. Quando você vê “Trump aceita cláusula de ética” seguido horas depois por “democratas rejeitam o projeto”, pode parecer contradição, mas não é. O que aconteceu foi um deslocamento: o obstáculo saiu da existência da regra de ética e foi para o mecanismo de fiscalização. É progresso real, ainda que incompleto. A cláusula que não existia agora existe. Falta acertar quem fiscaliza.

Na leitura da Formadores, o CLARITY Act continua sendo uma peça estrutural de longo prazo, não um gatilho de curto prazo. Como explicamos ontem, a base regulatória permanente que a lei criaria é um dos pilares sobre os quais um ciclo mais duradouro se constrói, porque destrava o capital institucional que exige segurança jurídica de lei, não de orientação administrativa. Mas a construção desse pilar é um processo político, e processos políticos avançam em ziguezague, com concessões de um lado gerando novas exigências do outro.

O que observar nas próximas duas semanas: se surge uma proposta de fiscalização independente do Departamento de Justiça que satisfaça os democratas, e se o texto reconciliado consegue os sete votos antes de 7 de agosto. O FOMC de 29 de julho entra no meio desse período como o outro grande teste. São dois processos correndo em paralelo, o regulatório e o macro, e ambos apontam para a mesma janela de tempo. Para quem investe com horizonte de anos, o desfecho de qualquer um dos dois não muda a tese de fundo, mas ajuda a entender o ritmo em que a fundação do próximo ciclo está sendo assentada.

O detalhe que resume o momento é a metáfora do secretário do Tesouro: estar “na linha de 1 jarda” significa faltar muito pouco, mas a jarda final costuma ser a mais difícil de avançar. O CLARITY Act nunca esteve tão perto de virar lei, com o texto fundido, a ética acordada com Trump e a pressão do prazo. E ao mesmo tempo, a rejeição de sete democratas mostra que a jarda que falta é justamente a mais disputada. Progresso e impasse convivendo no mesmo dia, é assim que uma lei complexa se aproxima da linha de chegada.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e opinativo, não constituindo recomendação de investimento, oferta, solicitação ou garantia de rentabilidade em relação a bitcoin, criptoativos ou quaisquer outros ativos. As informações, análises, opiniões e projeções aqui contidas têm finalidade meramente informativa e não substituem avaliação própria, independente e criteriosa por parte do leitor. Desempenhos passados não representam garantia de resultados futuros. Assim, toda decisão tomada com base neste conteúdo é de responsabilidade exclusiva do leitor, não podendo a Formadores de Mercado ser responsabilizada por eventuais perdas, danos ou prejuízos decorrentes de seu uso ou interpretação.