Formadores de Mercado

Cripto Vira Banco, Banco Vira Cripto: A Convergência Que Está Reescrevendo o Sistema Financeiro

9 de setembro de 2026 · Às vezes, dois acontecimentos que parecem separados, quando colocados lado a lado, revelam uma tendência muito maior do que cada um deles isoladamente. É o que está acontecendo agora, com dois movimentos que apontam para a mesma direção, mas partindo de lados opostos. De um lado, as empresas nativas de cripto estão correndo para se tornarem bancos: a Block, empresa de pagamentos de Jack Dorsey (o mesmo fundador do Twitter), acaba de pedir uma licença bancária ao regulador dos Estados Unidos para custodiar Bitcoin e stablecoins, juntando-se a uma fila de nada menos que 23 pedidos parecidos. Do outro lado, os bancos tradicionais estão correndo para entrar no cripto: 21 dos maiores bancos do mundo, incluindo gigantes como Goldman Sachs, Bank of America e Citi, anunciaram que vão se unir para lançar a sua própria stablecoin. Os dois mundos, que por anos se olharam com desconfiança, agora correm um em direção ao outro. As empresas de cripto querem a legitimidade dos bancos, e os bancos querem a tecnologia do cripto. Esta newsletter explica essa convergência, por que os dois lados estão se movendo ao mesmo tempo, o que cada movimento significa, e o que essa fusão de mundos representa para o investidor de longo prazo.

Tempo de leitura: ~7 min

Cripto vira banco

23 pedidos

das 40 solicitações recentes de licença bancária nos EUA envolvem cripto · a Block, de Dorsey, é a mais nova

Banco vira cripto

21 bancos

gigantes globais (Goldman, BofA, Citi) se uniram para lançar uma stablecoin de dólar em 2027

O que a Block quer

Custódia própria

um banco de custódia de Bitcoin e stablecoins, sem depósitos nem empréstimos, sob supervisão federal

A meta dos bancos

Dólar e euro

primeiro uma stablecoin de dólar, depois de euro e de outras moedas do G7, para pagamentos globais


Lado 1: as empresas de cripto viram bancos

Comecemos pelo primeiro movimento. A Block, empresa de pagamentos de Jack Dorsey, entrou com um pedido no OCC (o órgão que regula os bancos nacionais nos Estados Unidos) para criar o “Builders Bank & Trust”, um banco especializado em guardar (custodiar) Bitcoin e stablecoins para seus clientes. É importante entender que tipo de banco é esse: um “national trust bank”, ou banco de custódia, que não aceita depósitos comuns nem faz empréstimos. Sua função é ser um guardião confiável de ativos, sob a supervisão do regulador federal.

E a Block está longe de estar sozinha nessa corrida. Segundo os dados do próprio regulador, das 40 solicitações recentes para abrir novos bancos nos Estados Unidos, 23 envolvem atividades com ativos digitais. Nomes de peso do cripto já trilharam esse caminho: Ripple, Circle, Paxos, BitGo e a Fidelity Digital Assets receberam aprovações ao longo de 2025 e 2026. Há uma verdadeira fila de empresas de cripto querendo o carimbo de “banco”.

Por que elas querem isso? Por três motivos principais. Primeiro, legitimidade: ter uma licença bancária federal é um selo de confiança que atrai clientes institucionais grandes, que só operam com entidades reguladas. Segundo, controle: em vez de depender de um custodiante terceirizado para guardar as moedas, a empresa passa a fazer isso ela mesma, com um marco regulatório claro. Terceiro, futuro: elas estão se posicionando para o momento em que cripto e finanças tradicionais forem, simplesmente, a mesma coisa. É um movimento estratégico de longo prazo.


Lado 2: os bancos tradicionais viram cripto

Agora, o movimento na direção oposta, e igualmente poderoso. Enquanto as empresas de cripto correm para virar bancos, os bancos tradicionais correm para entrar no cripto. Vinte e um dos maiores bancos e instituições financeiras do mundo anunciaram, no início de setembro, que vão formar uma empresa conjunta para lançar a sua própria stablecoin, uma moeda digital atrelada ao dólar.

A lista de participantes impressiona e mostra a seriedade do projeto: estão nele o Goldman Sachs, o Bank of America, o Citi, o Wells Fargo, o Deutsche Bank, o UBS, o Santander, o MUFG (o maior banco do Japão) e a Fidelity, entre outros, abrangendo bancos da América do Norte, Europa, Ásia, Oriente Médio e África. O plano é lançar primeiro uma stablecoin de dólar no primeiro semestre de 2027, seguida por uma versão em euro e, depois, em outras moedas do G7. O objetivo é usá-la para pagamentos internacionais e liquidação de operações, tanto para grandes instituições quanto para o varejo.

O motivo dessa união é claro, e é parte defensivo, parte ofensivo. Defensivo porque, se os pagamentos digitais estão migrando para as stablecoins (como viemos mostrando), os bancos não querem perder esse território para as emissoras nativas de cripto, como a Tether e a Circle. Ofensivo porque eles querem usar sua enorme rede de clientes e sua credibilidade para dominar esse novo mercado. Não à toa, as ações da Circle (emissora da stablecoin USDC) caíram cerca de 6% com o anúncio, à medida que os investidores perceberam que uma nova e poderosa concorrência estava chegando.

⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e informativo, e descreve projetos sujeitos a aprovações regulatórias e mudanças. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.


Por que os dois lados correm ao mesmo tempo

O que faz esses dois movimentos serem tão significativos é que eles acontecem simultaneamente, e por uma razão comum: a clareza regulatória finalmente chegou. Marcos legais como o GENIUS Act (a lei de stablecoins dos EUA) e a maior abertura do regulador bancário criaram as “regras do jogo” que faltavam. Com regras claras, tanto as empresas de cripto quanto os bancos se sentem seguros para investir pesado, e ninguém quer ficar para trás.

Os dois lados da mesma convergência

O movimento O que busca
Cripto vira banco (Block e outros) A legitimidade e a confiança do sistema bancário, para atrair grandes clientes e custodiar ativos com selo oficial
Banco vira cripto (21 bancos) A eficiência da tecnologia blockchain, para não perder o mercado de pagamentos para as emissoras de cripto

Quando você junta as duas pontas, o quadro fica claro: as fronteiras entre “cripto” e “banco” estão se dissolvendo. No futuro que esses movimentos desenham, talvez não faça mais sentido separar os dois mundos. Você poderá ter Bitcoin, stablecoins e dinheiro tradicional na mesma conta, na mesma instituição, seja ela um “banco que virou cripto” ou uma “empresa de cripto que virou banco”. É a integração que viemos apontando há semanas, agora acontecendo pelos dois lados ao mesmo tempo.


O contraponto: nem todos aplaudem

Fiéis ao nosso compromisso de mostrar os dois lados, é importante dizer que essa convergência não é celebrada por todos. Há críticas legítimas, e ignorá-las seria pintar um quadro incompleto.

A senadora americana Elizabeth Warren, uma voz influente, criticou duramente a facilidade com que as empresas de cripto estão obtendo licenças bancárias. O argumento dela é que essas empresas estariam, na prática, se tornando “bancos de cripto” para desfrutar da legitimidade, mas sem assumir todas as obrigações e salvaguardas que um banco tradicional tem. É uma preocupação sobre a proteção do consumidor e a estabilidade do sistema. Vale notar, para dar o contexto correto, que um banco de custódia como o que a Block propõe é, por natureza, mais restrito (não faz empréstimos nem toma depósitos), o que limita parte desses riscos, mas o debate sobre as regras e a fiscalização é real e saudável.

Há também uma tensão do lado dos bancos. A stablecoin conjunta dos 21 bancos, sendo uma iniciativa privada de grandes instituições, levanta questões sobre concentração de poder no sistema de pagamentos. E projetos assim, com muitos participantes e detalhes técnicos ainda indefinidos (nem o nome, nem a blockchain, nem o custodiante das reservas foram anunciados), podem enfrentar atrasos ou dificuldades de execução. Ou seja, os dois movimentos são reais e importantes, mas ainda estão em construção, e cercados de debates legítimos sobre como devem ser regulados. Otimismo com a tendência, sim; ingenuidade sobre os desafios, não.


O que isso significa para o investidor brasileiro

Para o investidor brasileiro, essa convergência traz uma percepção estratégica valiosa: o cripto e o sistema financeiro tradicional não são mais dois mundos em guerra, mas dois mundos em fusão. A pergunta deixou de ser “o cripto vai substituir os bancos?” e passou a ser “como o cripto e os bancos vão se integrar?”. Entender isso muda a forma de enxergar o setor, de uma disputa de vida ou morte para uma convergência inevitável.

A leitura da Formadores é que esses movimentos são mais um capítulo, talvez o mais concreto, da tese de fundo que viemos construindo: a integração do cripto ao sistema financeiro global. Falamos do JPMorgan aceitando Bitcoin como garantia, das stablecoins virando infraestrutura de pagamento, da tokenização. Agora vemos os dois lados construindo, literalmente, a mesma ponte, de margens opostas. Quando as empresas de cripto viram bancos e os bancos viram cripto, a fusão deixa de ser teoria e passa a ser estrutura. Não é sobre o preço do Bitcoin subir amanhã, é sobre o alicerce do futuro do dinheiro sendo assentado hoje.

Na prática, a lição é sobre horizonte. Esses movimentos (licenças bancárias, uma stablecoin que só nasce em 2027) não mexem no preço desta semana, mas moldam o cenário dos próximos anos. Para quem investe pensando em prazos longos, são exatamente esses sinais estruturais, e não o sobe e desce do dia, que revelam a direção da maré. O investidor maduro observa essas fundações sendo construídas e entende que está diante de uma transformação profunda e duradoura do sistema financeiro. E é essa compreensão, muito mais que qualquer manchete de preço, que sustenta decisões sólidas e uma convicção que resiste à volatilidade de curto prazo.

O que resume o tema: dois movimentos, uma só direção. De um lado, empresas de cripto como a Block correm para virar bancos, buscando legitimidade. Do outro, 21 dos maiores bancos do mundo se unem para lançar uma stablecoin, buscando tecnologia. Os dois mundos, antes rivais, agora correm um em direção ao outro, impulsionados pela clareza regulatória. Há debates legítimos sobre as regras dessa fusão, e ela ainda está em construção. Mas a direção é inconfundível: cripto e finanças tradicionais estão se tornando uma coisa só. E, para quem pensa em anos, testemunhar a construção desse novo alicerce vale mais do que qualquer cotação de um dia.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e opinativo, não constituindo recomendação de investimento, oferta, solicitação ou garantia de rentabilidade em relação a bitcoin, criptoativos ou quaisquer outros ativos. As informações, análises, opiniões e projeções aqui contidas têm finalidade meramente informativa e não substituem avaliação própria, independente e criteriosa por parte do leitor. Desempenhos passados não representam garantia de resultados futuros. Assim, toda decisão tomada com base neste conteúdo é de responsabilidade exclusiva do leitor, não podendo a Formadores de Mercado ser responsabilizada por eventuais perdas, danos ou prejuízos decorrentes de seu uso ou interpretação.