Formadores de Mercado

Nem Vender, Nem Ficar Parado: A Nova Era em Que Empresas Pegam Bilhões Emprestados Usando o Bitcoin Como Garantia

11 de agosto de 2026 · Existe uma velha máxima entre os investidores de Bitcoin de longo prazo: “não venda o seu Bitcoin”. A ideia é que, se você acredita na valorização do ativo ao longo dos anos, vender hoje para levantar dinheiro significa abrir mão do potencial de amanhã. Mas e quando você precisa de dinheiro, seja para uma emergência, uma oportunidade ou um investimento? Durante muito tempo, a única resposta era vender. Agora, uma nova indústria está amadurecendo e oferecendo um terceiro caminho: usar o Bitcoin como garantia de um empréstimo, sem vendê-lo. E não estamos falando de algo pequeno ou marginal. Neste mês, a MARA Holdings, uma das maiores mineradoras de Bitcoin do mundo, deu 18.750 bitcoins, avaliados em cerca de US$ 1,2 bilhão, como garantia para captar US$ 600 milhões em empréstimos de instituições como a Coinbase e a Two Prime. Foi a maior demonstração pública até hoje de que o Bitcoin funciona como colateral de nível institucional. Como resumiu o CEO da Two Prime, os empréstimos garantidos por Bitcoin estão “amadurecendo como produto”. Esta newsletter explica como funciona esse mecanismo, por que ele representa uma mudança profunda de mentalidade, e quais são os riscos reais que essa estratégia carrega.

Tempo de leitura: ~6 min

A garantia da MARA

18.750 BTC

~US$ 1,2 bilhão dados como colateral · cerca de 53% de todo o Bitcoin que a empresa possuía

O que captou

US$ 600 mi

em empréstimos, sem vender um único Bitcoin · Coinbase Credit (US$ 450M) e Two Prime (US$ 300M)

Custo do empréstimo

~7,56% ao ano

taxa média ponderada · vencimento em agosto de 2028 · cerca de US$ 56,7 milhões de juros ao ano

O risco central

Liquidação

se o preço do Bitcoin cair demais, o credor pode ser autorizado a vender a garantia · o risco de todo empréstimo com colateral


Como funciona um empréstimo lastreado em Bitcoin

O conceito é o mesmo de um empréstimo com garantia que já existe no mundo tradicional, como quando alguém dá um imóvel como garantia para obter crédito mais barato. A diferença é o que se coloca como garantia: em vez de uma casa, o Bitcoin. Funciona assim: o dono do Bitcoin entrega suas moedas a um credor como colateral, e recebe em troca um empréstimo em dinheiro. Enquanto paga o empréstimo, ele continua sendo o dono econômico daquele Bitcoin, ou seja, se o preço subir, o ganho continua sendo dele. Ao quitar a dívida, recupera as moedas.

Um detalhe importante é que o empréstimo é sempre menor que o valor da garantia. No caso da MARA, foram US$ 1,2 bilhão em Bitcoin para captar US$ 600 milhões, ou seja, o dobro de garantia em relação ao valor emprestado. Essa “folga” existe justamente porque o Bitcoin é volátil: o credor quer uma margem de segurança para o caso de o preço cair. Quanto maior a folga, mais seguro o empréstimo para o credor, e menor o risco de complicações para quem toma.

A grande vantagem, para quem acredita no Bitcoin no longo prazo, é evitar o chamado “evento tributável” e a perda de exposição. Quando você vende o Bitcoin, você pode ter que pagar imposto sobre o ganho e, principalmente, deixa de participar de qualquer valorização futura. Ao tomar um empréstimo usando o Bitcoin como garantia, você levanta o dinheiro de que precisa e mantém a exposição ao ativo. É a tentativa de ter as duas coisas: a liquidez do dinheiro hoje e a posse do Bitcoin para amanhã.


O caso MARA: US$ 600 milhões sem vender o Bitcoin

O caso que colocou esse tema em destaque é o da MARA Holdings, uma das maiores mineradoras de Bitcoin listadas em bolsa. Em 4 de agosto, a empresa fechou dois empréstimos, num total de US$ 600 milhões em dinheiro novo, dando como garantia 18.750 bitcoins, o equivalente a cerca de 53% de toda a sua reserva do ativo na época. O crédito veio de duas instituições: a Coinbase Credit, com US$ 450 milhões, e a Two Prime, com US$ 300 milhões, a uma taxa média de aproximadamente 7,56% ao ano, com vencimento em 2028.

O objetivo do dinheiro é revelador da estratégia. A MARA usará boa parte dos recursos para ajudar a financiar a aquisição da Long Ridge, uma usina de energia a gás em Ohio, que a empresa pretende converter num polo de mineração de Bitcoin e de infraestrutura de inteligência artificial. Ou seja, a empresa usou seu Bitcoin parado no balanço para financiar uma expansão do negócio, sem precisar se desfazer do ativo que acredita que vai valorizar. É o Bitcoin trabalhando como capital, em vez de ficar apenas guardado.

E a MARA não é um caso isolado. Segundo a CoinDesk, essa é uma tendência crescente entre as empresas que detêm Bitcoin em tesouraria: em vez de vender para levantar caixa, elas estão cada vez mais usando as moedas como garantia. Outros credores, como Ledn e Kraken, também vêm expandindo esse mercado, com estruturas cada vez mais sofisticadas. Uma indústria de crédito lastreado em Bitcoin está se formando diante dos nossos olhos.

⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e informativo. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo, nem a tomada de empréstimos. Empréstimos lastreados em cripto envolvem risco elevado de liquidação. Criptoativos envolvem alto risco de perda.


A mudança de mentalidade: o Bitcoin como ativo produtivo

O que essa tendência revela vai além dos números. Ela marca uma mudança na forma como as instituições enxergam o Bitcoin. Por muito tempo, o ativo foi tratado como algo puramente especulativo: você compra na esperança de vender mais caro. Depois, evoluiu para “reserva de valor”: você guarda como quem guarda ouro, esperando que preserve poder de compra no longo prazo. Agora, surge uma terceira camada: o Bitcoin como um ativo produtivo, que pode gerar liquidez e financiar operações sem precisar ser vendido.

Essa é uma evolução importante na maturação do mercado. Quando um ativo passa a ser aceito como garantia por instituições financeiras sérias, com contratos detalhados cobrindo custódia, chamadas de margem e liquidação, ele deixa de ser uma aposta e passa a ser uma peça reconhecida da engrenagem financeira. É o mesmo caminho que o ouro e os imóveis percorreram ao longo de décadas. O Bitcoin está fazendo isso em poucos anos, e o caso da MARA é um marco visível dessa transição.

O CEO da Two Prime deu uma pista de onde isso pode chegar. Ele apontou que essa competência de usar ativos digitais como garantia vai ficar cada vez mais relevante à medida que o sistema financeiro migra para a blockchain, citando as ações tokenizadas como uma próxima área de crescimento. Ou seja, o empréstimo lastreado em Bitcoin é apenas o começo de um sistema de crédito construído sobre ativos digitais. Conecta diretamente com a tokenização que já exploramos aqui: peças do mesmo quebra-cabeça de um sistema financeiro cada vez mais on-chain.


Os riscos reais que não podem ser ignorados

Seria irresponsável apresentar essa estratégia sem falar dos riscos, que são reais e sérios. O empréstimo lastreado em Bitcoin não é mágica, é uma alavancagem, e alavancagem sempre corta dos dois lados.

Os principais riscos do empréstimo lastreado em Bitcoin

Risco O que significa
Liquidação forçada Se o Bitcoin cair muito, a garantia perde valor e o credor pode vender as moedas para se proteger, no pior momento possível
Chamada de margem Se o preço cai, o credor pode exigir mais Bitcoin como garantia, exigindo capital extra num momento ruim
Custo dos juros O empréstimo tem custo (7,56% ao ano no caso da MARA); se o Bitcoin não valorizar o bastante, a conta pode não fechar
Risco de custódia Enquanto o Bitcoin está com o credor, você depende da segurança e da solvência dele para reaver suas moedas

O risco mais temido é o de uma espiral de liquidação. Se o preço do Bitcoin cai bruscamente, os credores podem ser forçados a vender as garantias, o que pressiona ainda mais o preço para baixo, o que pode disparar novas liquidações. Foi um mecanismo parecido que amplificou o colapso de 2022. Vale notar que a MARA não divulgou publicamente o preço exato do Bitcoin que dispararia uma liquidação forçada, o que torna difícil, de fora, medir o tamanho preciso desse risco no caso dela.


O que isso significa para o investidor brasileiro

Para o investidor brasileiro, há uma lição de mentalidade e um alerta, e os dois importam. A lição de mentalidade é entender a evolução do Bitcoin de “coisa para vender” para “ativo que pode trabalhar por você”. Mesmo que a maioria das pessoas nunca vá tomar um empréstimo lastreado em Bitcoin, compreender que o ativo agora é aceito como garantia por instituições sérias ajuda a enxergar o quanto ele amadureceu como classe de ativo. É mais um sinal, ao lado da tokenização, dos ETFs e da reserva estratégica, de que o Bitcoin está se integrando ao sistema financeiro tradicional.

O alerta é sobre a alavancagem. O que faz sentido para uma empresa de bilhões de dólares, com equipes de gestão de risco, não necessariamente faz sentido para uma pessoa física. Tomar empréstimo dando Bitcoin como garantia é uma operação de alto risco: uma queda forte do preço pode levar à liquidação da sua garantia justamente no pior momento, transformando uma estratégia de “não vender” numa venda forçada no fundo. Por isso, a Formadores não recomenda esse tipo de operação, especialmente para quem não domina profundamente a gestão de risco envolvida.

A leitura de fundo é que esse movimento se encaixa na tese que viemos construindo: a infraestrutura financeira do Bitcoin está amadurecendo em várias frentes ao mesmo tempo, mesmo com o preço lateralizado. Empréstimos institucionais, tokenização, adoção corporativa, tudo isso são tijolos da mesma construção de longo prazo. Para quem investe com horizonte de anos, o mais importante não é usar essas ferramentas sofisticadas, e sim entender o que elas revelam: um ativo que, ano após ano, ganha mais funções e mais reconhecimento dentro do sistema financeiro global. E isso, para quem pensa no longo prazo, diz muito mais do que a cotação de um dia qualquer.

O que resume o tema: uma empresa gigante precisou de US$ 600 milhões e, em vez de vender seu Bitcoin, usou-o como garantia para levantar o dinheiro, mantendo a exposição ao ativo. Isso teria sido impensável há poucos anos, quando o Bitcoin era visto apenas como especulação. Hoje, ele é aceito como colateral de nível institucional. É uma poderosa demonstração de maturidade, mas também um lembrete de que toda alavancagem carrega risco. A ferramenta é sofisticada; a sabedoria está em saber quando, e se, ela deve ser usada.

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Davidson Luciano - @mcmanocall (X)

Analista técnico e criador do método CriptoFlow

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e opinativo, não constituindo recomendação de investimento, oferta, solicitação ou garantia de rentabilidade em relação a bitcoin, criptoativos ou quaisquer outros ativos. As informações, análises, opiniões e projeções aqui contidas têm finalidade meramente informativa e não substituem avaliação própria, independente e criteriosa por parte do leitor. Desempenhos passados não representam garantia de resultados futuros. Assim, toda decisão tomada com base neste conteúdo é de responsabilidade exclusiva do leitor, não podendo a Formadores de Mercado ser responsabilizada por eventuais perdas, danos ou prejuízos decorrentes de seu uso ou interpretação.