6 de agosto de 2026 · Nos últimos meses, um projeto de lei americano voltou às manchetes com um nome que soa poderoso: ARMA, sigla para American Reserve Modernization Act, ou Lei de Modernização da Reserva Americana. A maioria das notícias o resumiu numa frase de impacto: “os Estados Unidos vão comprar 1 milhão de bitcoins”. A ideia de que a maior economia do mundo passaria a acumular 5% de toda a oferta de Bitcoin como reserva estratégica é, de fato, poderosa, e alimenta a tese de longo prazo de que o Bitcoin está virando um ativo soberano, no mesmo nível do ouro. Mas há um detalhe que quase toda a cobertura deixou passar, e que faz toda a diferença: o texto real do projeto, que consultamos diretamente na fonte oficial do Congresso americano, é mais contido do que a manchete sugere. O ARMA, na forma como foi escrito, não manda o governo comprar um único bitcoin. Ele faz outras coisas, importantes, mas diferentes. Esta newsletter explica o que o ARMA realmente propõe, de onde vem a confusão com o “1 milhão de BTC”, como funcionaria o engenhoso mecanismo do ouro que financiaria eventuais compras, e o que tudo isso significa para o investidor de longo prazo.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
O projeto
H.R. 8957
American Reserve Modernization Act (ARMA) · apresentado em 21/mai/2026 · Begich (Alaska) e Golden (Maine), bipartidário
A aspiração
1 milhão BTC
~5% de toda a oferta · a meta que os defensores desejam, mas que o texto do ARMA apenas estuda, sem obrigar
O que o texto obriga
20 anos
de retenção mínima do Bitcoin já sob custódia federal · com auditorias públicas (prova de reservas)
Status
Em comissão
ainda não é lei · tramita na Comissão de Serviços Financeiros da Câmara · longe de uma votação final
O ponto de partida: os EUA já têm uma reserva de Bitcoin
Para entender o ARMA, é preciso começar por um fato que muita gente desconhece: os Estados Unidos já possuem uma reserva estratégica de Bitcoin. Ela foi criada por um decreto (ordem executiva) assinado pelo presidente Trump em 6 de março de 2025, chamado “Estabelecimento da Reserva Estratégica de Bitcoin e do Estoque de Ativos Digitais dos Estados Unidos”. Essa reserva é formada, principalmente, pelos bitcoins que o governo americano apreendeu ao longo dos anos em operações contra crimes, algo em torno de 200 mil BTC.
O problema, do ponto de vista de quem defende o Bitcoin como reserva de longo prazo, é que um decreto presidencial é frágil. Ele pode ser revogado pelo próximo presidente com uma canetada, sem precisar passar pelo Congresso. Foi exatamente esse o argumento do congressista Nick Begich, autor do ARMA, ao apresentar o projeto: a necessidade de “travar os ganhos”, transformando algo que hoje depende da vontade de um governo em algo permanente, escrito em lei.
É essa a lógica central do ARMA. Ele nasce para pegar uma estrutura que já existe, mas que é reversível, e transformá-la em lei federal duradoura. A mesma lógica, aliás, que explicamos sobre o CLARITY Act: a diferença entre uma base que depende de quem está no poder e uma base que sobrevive à troca de governos. Regulação e reservas, os dois grandes temas do momento, giram em torno da mesma ideia de permanência.
O que o ARMA realmente faz
Aqui está a parte que exige precisão, porque é onde a maioria das manchetes escorregou. Lendo o texto do projeto na fonte oficial, o ARMA tem quatro pilares principais, e nenhum deles é uma ordem de compra imediata de bitcoins.
Os quatro pilares do ARMA, segundo o texto do projeto
| Pilar | O que significa |
|---|---|
| Codificar em lei | Transforma o decreto de 2025 em lei permanente, para que a reserva não possa ser desfeita por um futuro governo |
| Segurar por 20 anos | Obriga a manter o Bitcoin sob custódia por no mínimo 20 anos, blindando-o de pressões políticas de curto prazo |
| Auditar publicamente | Exige auditorias trimestrais de prova de reservas e um levantamento de todo o cripto que as agências federais possuem |
| Estudar a compra | Determina um estudo, em até 180 dias, sobre se é possível comprar mais Bitcoin de forma neutra para o orçamento |
Repare no quarto pilar: o ARMA manda o Tesouro e o Departamento de Comércio estudarem, em até 180 dias, se existe uma forma de adquirir mais Bitcoin sem aumentar a dívida nacional. É um estudo, não uma ordem. Há também uma cláusula que consolida os bitcoins apreendidos na reserva, em vez de leiloá-los como o governo fazia antes. Em resumo: o ARMA fortalece, organiza e blinda o que já existe, e abre a porta para uma possível compra futura, mas não aperta o botão dessa compra.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e descreve um projeto de lei em tramitação, sujeito a mudanças. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
De onde vem a confusão do “1 milhão de BTC”
Se o ARMA não manda comprar, de onde surgiu o número mágico de 1 milhão de bitcoins que apareceu em tantas manchetes? A resposta está num projeto irmão. A meta de adquirir 1 milhão de BTC, algo como 200 mil por ano ao longo de cinco anos, vem originalmente do BITCOIN Act, um projeto anterior apresentado pela senadora Cynthia Lummis. Esse sim propõe um programa ativo de compra.
O ARMA nasceu inspirado nessa ideia e compartilha a mesma visão de longo prazo, tratar o Bitcoin como o ouro do século 21. Mas, na hora de escrever o texto, seus autores optaram por um caminho mais cauteloso e palatável politicamente: em vez de ordenar a compra bilionária de imediato, o projeto blinda o que já existe e apenas estuda a compra futura. Foi essa nuance que a cobertura apressada perdeu, misturando a ambição dos defensores (o 1 milhão de BTC do BITCOIN Act) com o que o ARMA de fato determina.
Essa distinção importa para o investidor não por preciosismo, mas porque muda completamente as expectativas. Uma coisa é o governo americano estar legalmente obrigado a comprar 5% de todo o Bitcoin do mundo nos próximos cinco anos, o que teria um impacto brutal sobre a oferta. Outra, bem diferente, é o governo blindar sua reserva atual e estudar se uma compra futura seria viável. A primeira é um catalisador de preço; a segunda é uma fundação institucional de longo prazo. Confundir as duas leva a expectativas irreais.
O mecanismo do ouro: comprar Bitcoin sem criar dívida
A parte mais engenhosa de toda essa discussão é a resposta para a pergunta óbvia: quem paga por isso? Comprar centenas de milhares de bitcoins custaria dezenas de bilhões de dólares, e ninguém quer aumentar a dívida americana, que já passa dos 39 trilhões de dólares, para especular com cripto. A solução proposta é o que se chama de “neutro para o orçamento”, e ela passa pelo ouro.
Funciona assim. O Tesouro americano registra suas reservas de ouro em seus livros contábeis a um preço estatutário fixado em 1973: apenas 42,22 dólares por onça. Só que o ouro, no mercado real de hoje, vale muitas dezenas de vezes esse valor. Se o Tesouro simplesmente reavaliar seu ouro para o preço de mercado atual, surge, no papel, um ganho contábil de centenas de bilhões de dólares, sem que nada de novo aconteça no mundo real. É esse ganho de papel que, na proposta, financiaria a compra de Bitcoin, sem emitir um dólar de dívida nova nem cobrar impostos.
É uma ideia elegante, mas é honesto dizer que ela está longe de ser simples de executar. Reavaliar o ouro dessa forma exigiria uma legislação própria e levanta complexidades contábeis e até constitucionais reais. Não é um botão que o Tesouro pode apertar sozinho. Por isso, mesmo que o ARMA vire lei, o caminho até uma compra efetiva de Bitcoin ainda teria vários obstáculos pela frente. É uma engenharia financeira criativa, mas cheia de “poréns”.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, o ARMA é menos um catalisador de preço para amanhã e mais um sinal poderoso sobre a direção de longo prazo. Mesmo na sua versão contida, sem a compra obrigatória, ele representa algo simbólico e estrutural: o Congresso dos Estados Unidos discutindo formalmente tratar o Bitcoin como uma reserva soberana estratégica, no mesmo patamar do ouro. Há poucos anos, isso seria impensável. Que essa conversa aconteça, com apoio dos dois partidos, já é um marco na jornada do Bitcoin rumo à legitimidade institucional.
A leitura da Formadores é que o ARMA se encaixa na mesma tese de fundo que viemos construindo o mês inteiro: a de que a infraestrutura institucional do Bitcoin está sendo assentada, tijolo por tijolo, longe da euforia de preço. A reserva estratégica, a tokenização, os ETFs, o CLARITY Act, todos são peças da mesma construção de longo prazo. Nenhuma delas, isolada, move o preço amanhã. Juntas, elas mudam o que o Bitcoin é aos olhos do sistema financeiro global.
O que observar, com os pés no chão: o ARMA ainda não é lei, tramita numa comissão da Câmara e tem um longo caminho pela frente, sem garantia de aprovação. E, mesmo se aprovado na forma atual, ele não desencadearia uma compra imediata capaz de disparar o preço. Portanto, a postura correta é enxergar o ARMA pelo que ele é: não uma promessa de valorização de curto prazo, e sim mais um indício de que o Bitcoin está trilhando o caminho de reserva de valor reconhecida por Estados nacionais. Para quem investe com horizonte de anos, essa direção importa muito mais do que qualquer manchete sobre “1 milhão de BTC”.
O que resume o tema: a manchete dizia “os EUA vão comprar 1 milhão de bitcoins”, mas o texto do projeto conta uma história mais sóbria e, talvez, mais importante. Não se trata de uma corrida de compra que vai explodir o preço amanhã, e sim da tentativa de transformar o Bitcoin, de forma permanente e auditável, numa reserva estratégica dos Estados Unidos, como o ouro. É a diferença entre o barulho de uma manchete e o sinal silencioso de uma mudança histórica. E, para quem pensa em anos, é o sinal silencioso que constrói patrimônio.
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