9 de outubro de 2026 · Ao longo deste ano, cobrimos vários capítulos de uma mesma história: as stablecoins, as moedas digitais atreladas ao dólar, avançando em várias frentes. Falamos do euro digital da Revolut, da plataforma do PayPal, da onda dos bancos, da dolarização na América Latina. Agora, olhando o conjunto, dá para enxergar algo maior: 2026 está sendo o ano em que as stablecoins cruzaram uma linha decisiva. Elas deixaram de ser uma ferramenta de nicho, usada por traders para mover dinheiro entre corretoras, e passaram a ser tratadas como uma infraestrutura séria de pagamentos, algo que analistas de peso já apelidaram de “o dólar da internet”. E isso não é mais uma promessa vaga, é uma tendência que aparece nos números. O mercado de stablecoins passou dos US$ 300 bilhões, e, mais revelador, os pagamentos entre empresas (B2B) feitos com elas cresceram mais de 700% em um ano. Grandes corporações começaram a usá-las de verdade, para pagar fornecedores, fazer transferências internacionais e gerir seu caixa. Esta newsletter explica essa virada, os números que a comprovam, por que a regulação foi a chave que destravou tudo, e, com a honestidade de sempre, o que ainda falta e quais são os riscos. Como sempre, não vamos aqui prever preço, e sim entender uma transformação estrutural no mundo do dinheiro.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
O mercado de stablecoins
+US$ 300 bi
o tamanho total do mercado, alta de ~14% no ano · cerca de 99% atrelado ao dólar
Pagamentos entre empresas
+733%
foi o crescimento dos pagamentos B2B com stablecoins em um ano, chegando a cerca de US$ 226 bilhões
O “veredito do mercado”
~US$ 300 bi
foi quanto a nova lei de stablecoins tirou do valor das empresas de pagamento tradicionais, vistas como ameaçadas
A ressalva honesta
Ainda é cedo
o uso real em pagamentos ainda é pequeno perto do potencial, e o risco sistêmico cresce junto com o setor
A virada: de ferramenta de traders a infraestrutura
Para entender a mudança, é preciso lembrar o que as stablecoins eram até pouco tempo atrás. Durante anos, elas viveram nos bastidores do mundo cripto, cumprindo um papel discreto: servir de “dinheiro de passagem” entre as corretoras. Um trader que queria sair do Bitcoin sem converter para o dólar no banco usava uma stablecoin como estacionamento temporário. Era uma função útil, mas limitada e técnica, restrita ao universo da especulação.
O que está acontecendo em 2026 é uma mudança de categoria. As stablecoins estão saindo dos bastidores do cripto e entrando no “encanamento” das finanças tradicionais. Empresas de verdade, de fora do mundo cripto, começaram a usá-las como uma ferramenta de pagamento séria: para quitar faturas de fornecedores no exterior, fazer a folha de pagamento de funcionários em outros países, mover o caixa entre as filiais de uma multinacional. Como resumiu um analista, o que começou como um “truque de liquidez” amadureceu para virar um “trilho de pagamentos” de verdade, e não há mais volta.
O apelido “dólar da internet” captura bem a ideia. Assim como a internet permitiu enviar informação para qualquer lugar do mundo instantaneamente e de graça, as stablecoins prometem fazer o mesmo com o dólar: enviar valor para qualquer lugar, a qualquer hora, de forma quase instantânea e barata, sem depender da lentidão e das taxas do sistema bancário tradicional. É o dólar ganhando a velocidade e o alcance da internet.
Os números que comprovam a transformação
Essa tese não se sustenta só em narrativa, ela aparece nos dados. Vale olhar os números que mostram a transformação acontecendo.
A consolidação das stablecoins em números
| O indicador | O que ele mostra |
|---|---|
| Mercado acima de US$ 300 bi | O setor cresceu ~14% no ano e já representa cerca de 13% de todo o mercado cripto |
| Pagamentos B2B +733% | Os pagamentos entre empresas saltaram para cerca de US$ 226 bilhões no ano, a prova do uso corporativo |
| Economia de custos | Entre as empresas que já usam, 41% relataram economia de 10% ou mais, sobretudo em pagamentos internacionais |
| Chegada ao consumidor | Gigantes como Samsung, PayPal e Visa integraram stablecoins a produtos usados por milhões de pessoas |
O dado dos pagamentos entre empresas é o mais eloquente. Um crescimento de mais de 700% em um ano não é moda passageira, é adoção real por quem precisa resolver um problema concreto. E a economia de custos explica o porquê: para uma empresa que faz pagamentos internacionais, trocar o sistema bancário tradicional (lento e caro) por stablecoins (rápidas e baratas) representa uma vantagem competitiva direta. Quando algo economiza dinheiro de verdade, a adoção deixa de depender de ideologia e passa a ser pura lógica de negócio.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e descreve uma tendência de mercado, sem prever a direção do preço de nenhum ativo. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Stablecoins também têm riscos, como a solidez do emissor e da reserva. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
A regulação: a chave que destravou tudo
Por que essa virada aconteceu justamente agora? A resposta principal é a regulação. Por anos, a maior barreira para que grandes empresas e bancos usassem stablecoins era a insegurança jurídica, a falta de regras claras. Nenhuma corporação séria queria arriscar usar algo que poderia ser proibido ou punido no futuro. A chegada de marcos regulatórios mudou isso completamente.
Nos Estados Unidos, uma lei específica para stablecoins, conhecida como GENIUS Act, estabeleceu regras federais claras: as stablecoins precisam ter 100% das reservas em ativos seguros (como dólares e títulos do governo), divulgar a composição dessas reservas todo mês, e seguir regras contra lavagem de dinheiro. Na Europa, o marco MiCA cumpre um papel parecido. Com regras claras, o medo deu lugar à confiança, e as instituições se sentiram seguras para construir sobre essa base.
Há um dado que ilustra, de forma quase dramática, o quanto o mercado passou a levar as stablecoins a sério. Quando a nova lei americana foi aprovada, as ações das empresas de pagamento tradicionais (as processadoras que hoje intermedeiam as transferências) caíram, perdendo um valor estimado em cerca de US$ 300 bilhões, com as empresas de transferência internacional sendo as mais atingidas. Foi o “veredito do mercado”: os investidores entenderam que as stablecoins são uma ameaça competitiva real a esse setor, e precificaram isso. Quando o dinheiro aposta contra os incumbentes, é porque enxerga a mudança como séria.
A honestidade: o que ainda falta e os riscos
Fiéis ao nosso compromisso, é fundamental equilibrar o otimismo da tese com um olhar realista. A virada é real, mas a história está longe de estar completa, e há riscos que crescem junto com o setor.
Primeiro, sobre o tamanho real: por mais que os números cresçam, o uso das stablecoins em pagamentos genuínos ainda é pequeno diante do seu potencial e do tamanho do sistema financeiro global. Boa parte do volume que às vezes se divulga é de movimentação entre carteiras, não de pagamentos reais de bens e serviços. E a compreensão do público ainda é baixa: uma pesquisa recente da Visa mostrou que apenas 6% dos consumidores da Ásia-Pacífico de fato entendem o que são stablecoins. Ou seja, a adoção empresarial avança, mas a adoção popular e cotidiana ainda engatinha.
Segundo, e mais sério: o risco sistêmico. À medida que o mercado de stablecoins cresce rumo à casa do trilhão de dólares, as reservas que lastreiam essas moedas começam a se parecer com o balanço de um banco. Isso levanta preocupações reais: o que acontece se um grande emissor quebrar, ou se houver uma “corrida” para resgatar as moedas ao mesmo tempo? São riscos que os reguladores estão justamente tentando endereçar, mas que não desapareceram. A solidez de uma stablecoin depende inteiramente da qualidade e da real existência das reservas que a lastreiam, e confiar cegamente nisso seria ingênuo. Por isso, a maturação traz benefícios, mas também novas responsabilidades e perigos a serem monitorados.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, entender a consolidação das stablecoins é enxergar uma das transformações mais concretas e importantes de todo o universo cripto. E nós, brasileiros, estamos na vanguarda dessa mudança: como já mostramos, o Brasil é um dos maiores mercados de stablecoins do mundo, com a maior parte da atividade cripto do país acontecendo justamente com essas moedas. O que as grandes empresas globais estão descobrindo agora, muitos brasileiros já praticam no dia a dia, usando stablecoins para se proteger e transferir valor.
A leitura da Formadores é que essa é a confirmação de uma tese que viemos construindo peça por peça ao longo do ano: a de que a tecnologia blockchain está deixando de ser uma promessa especulativa para virar infraestrutura financeira real. As stablecoins são, talvez, o exemplo mais claro e tangível disso, porque resolvem um problema concreto (mover dinheiro de forma rápida e barata) e já estão sendo adotadas por quem precisa. É um sinal de maturação do setor inteiro, que vai muito além do preço de qualquer moeda.
Na prática, o mais importante aqui é a compreensão, não uma recomendação, e nós, como sempre, não vamos dizer o que fazer com o preço de nada. Vale, isso sim, entender a diferença fundamental entre “usar” e “investir”. As stablecoins são uma ferramenta de uso (pagar, transferir, proteger), não um investimento que se valoriza, afinal, são feitas para valer sempre um dólar. Mas compreender que essa infraestrutura está crescendo e amadurecendo ajuda a enxergar o valor estrutural de longo prazo de todo o ecossistema. E vale sempre a responsabilidade: uma stablecoin é tão sólida quanto as reservas por trás dela, então escolher as reguladas e transparentes é parte de usar essa tecnologia com maturidade. Para quem pensa em anos, acompanhar essa construção de infraestrutura, com entusiasmo e senso crítico, é o que separa quem entende o setor de quem só olha a cotação.
O que resume o tema: 2026 é o ano em que as stablecoins cruzaram a linha que separa uma promessa de uma realidade. Elas deixaram de ser “dinheiro de passagem” de traders para virar a infraestrutura de pagamentos de grandes empresas, o “dólar da internet”. Os números comprovam: mercado acima de US$ 300 bilhões, pagamentos entre empresas crescendo mais de 700%, e a regulação dando a segurança que faltava, a ponto de abalar as empresas de pagamento tradicionais. Mas a honestidade manda lembrar que o uso cotidiano ainda engatinha e que o risco sistêmico cresce junto. É uma transformação estrutural real e empolgante, que pede, como tudo no cripto, entusiasmo com os olhos abertos. E o Brasil, mais uma vez, está na dianteira dessa história.
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