26 de agosto de 2026 · Enquanto o mercado acompanha a oscilação do preço do Bitcoin, uma revolução muito mais silenciosa e concreta segue avançando: a das stablecoins, as moedas digitais atreladas a moedas tradicionais como o dólar e o euro. Já falamos aqui de como elas viraram o “dólar de bolso” da América Latina. Agora, uma onda de notícias mostra que esse movimento está se acelerando e se espalhando pelo mundo, saindo de vez do nicho cripto para dentro do sistema financeiro tradicional. O sinal mais forte veio da Revolut, uma das maiores fintechs do mundo, com cerca de 80 milhões de clientes, que lançou sua própria stablecoin, e não atrelada ao dólar, mas ao euro. Ao mesmo tempo, o Japão avança para liberar o uso de stablecoins em pagamentos de alto valor, e um gigante financeiro da Coreia do Sul fechou parceria com a Visa para emitir as suas. São movimentos que, juntos, contam uma história clara: o dinheiro digital estável está virando infraestrutura financeira global, com o euro finalmente entrando num jogo até agora dominado pelo dólar. Esta newsletter explica essa onda, o que ela significa, e, com a honestidade de sempre, o tamanho real desse movimento, que é mais promissor do que dominante, por enquanto.
Tempo de leitura: ~6 min
Neste artigo
O lançamento
EURR
a stablecoin de euro da Revolut, atrelada 1 para 1 ao euro, sob a regulação MiCA da União Europeia
Alcance potencial
80 milhões
de clientes da Revolut no mundo · o dinheiro digital chegando a um público de massa, fora do nicho cripto
Mercado global
~US$ 316 bi
o tamanho do mercado de stablecoins · o Citi projeta que pode chegar a trilhões até 2030
O domínio do dólar
85%
do mercado ainda é dominado por duas stablecoins de dólar (USDT e USDC) · o euro é um desafiante iniciante
O movimento da Revolut: o euro entra no jogo
A notícia mais simbólica da semana veio da Revolut. Para quem não conhece, é uma das maiores fintechs do mundo, um “banco digital” que atende cerca de 80 milhões de clientes em mais de 40 países. Nesta semana, ela começou a lançar sua própria stablecoin, batizada de EURR, projetada para valer sempre 1 euro. O lançamento começou de forma gradual, para clientes selecionados na Dinamarca, na Polônia e em Portugal, com expansão para o resto da Europa prevista para os próximos meses.
Dois detalhes tornam esse lançamento especial. O primeiro é que a EURR é atrelada ao euro, não ao dólar. A imensa maioria das stablecoins do mundo é lastreada em dólar, e a própria Revolut destacou que a EURR oferece uma alternativa em euro “sem assumir a exposição ao dólar americano”. Isso é relevante para europeus que querem os benefícios do dinheiro digital sem depender da moeda americana. O segundo detalhe é a conformidade regulatória: a EURR foi construída sob a MiCA, o marco regulatório de cripto da União Europeia, o que dá a ela um selo de legitimidade e segurança jurídica, sendo emitida por uma empresa licenciada (a Bridge, do grupo Stripe).
O significado é maior do que o produto em si. Quando uma fintech com 80 milhões de clientes coloca uma stablecoin dentro do seu aplicativo, ela leva o dinheiro digital para um público de massa, gente comum que talvez nunca tenha usado uma exchange de cripto. É o dinheiro de blockchain saindo do nicho e entrando na vida cotidiana, integrado a serviços que as pessoas já usam para pagar contas e transferir dinheiro.
Não é só a Revolut: uma onda global
O movimento da Revolut não é um caso isolado, e é isso que o torna significativo. Ele faz parte de uma onda global que se manifesta em várias frentes ao mesmo tempo, com bancos, fintechs e governos correndo para entrar no jogo das stablecoins.
A onda global das stablecoins, em várias frentes
| Frente | O que está acontecendo |
|---|---|
| Europa (Revolut) | Lançou a EURR, stablecoin de euro, para seus 80 milhões de clientes, sob a regulação MiCA |
| Japão | Estuda liberar o uso de stablecoins em pagamentos de alto valor, como a compra de carros e imóveis |
| Coreia do Sul | O gigante Shinhan fechou parceria com a Visa para emissão e liquidação de stablecoins |
| EUA e outros | Visa, Stripe, Western Union e outros lançaram ou anunciaram iniciativas de stablecoin ao longo do ano |
Repare no padrão: não são empresas nativas de cripto, e sim gigantes das finanças tradicionais, bancos, redes de cartão, fintechs de pagamento. Isso marca uma virada. Se antes as stablecoins eram vistas como uma ferramenta de traders de cripto, agora são disputadas como o próximo campo de batalha dos pagamentos digitais globais. O nome do jogo é virar o “trilho” por onde o dinheiro se move.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e informativo. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Stablecoins também têm riscos, como a solidez do emissor e da reserva. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
Por que os bancos e fintechs querem stablecoins
Por que tantas instituições tradicionais estão correndo para isso ao mesmo tempo? A resposta está nas vantagens práticas que as stablecoins oferecem sobre o sistema de pagamentos tradicional, especialmente para transferências internacionais.
O sistema bancário tradicional, para mover dinheiro entre países, depende de uma rede de bancos intermediários, o que torna as transferências lentas (podem levar dias) e caras (com várias taxas no caminho). As stablecoins, por rodarem em blockchain, permitem mover valor de forma quase instantânea, 24 horas por dia, 7 dias por semana, e com custos muito menores. Para um banco ou uma fintech, oferecer isso é uma forma de reduzir custos operacionais e de dar um serviço melhor ao cliente. É uma modernização do encanamento financeiro.
Há também a questão da clareza regulatória, que destravou tudo. Marcos como a MiCA na Europa e leis específicas para stablecoins nos Estados Unidos deram às instituições a segurança jurídica que faltava para investir pesado no setor. Antes, o medo do vácuo regulatório afastava os grandes. Agora, com regras claras, eles se sentem seguros para entrar, e ninguém quer ficar de fora do que pode ser a próxima grande infraestrutura de pagamentos.
O tamanho real: promessa grande, começo pequeno
Aqui entra a dose de honestidade que faz parte de toda análise séria. É fácil se empolgar com uma “onda global”, mas é preciso olhar os números com pé no chão, para separar a promessa de longo prazo da realidade de hoje.
O mercado de stablecoins vale hoje cerca de US$ 316 bilhões, um número grande, mas que na verdade ficou relativamente estável ao longo de 2026, depois de anos de crescimento forte. E, crucialmente, ele é dominado pelo dólar: duas stablecoins americanas, a USDT e a USDC, representam sozinhas cerca de 85% de todo o mercado. As stablecoins de euro, incluindo a nova EURR, são desafiantes muito iniciantes nesse cenário. Para se ter uma ideia do tamanho do desafio, nos primeiros momentos após o lançamento, a EURR tinha uma circulação minúscula, enquanto uma concorrente de euro já estabelecida, a EURC da Circle, já contava com centenas de milhões de euros em circulação.
Ou seja, o movimento é mais promissor do que dominante, por enquanto. A entrada da Revolut é importante pelo potencial (80 milhões de clientes é um alcance enorme), mas transformar potencial em uso real leva tempo. Projeções otimistas, como a do banco Citi, apontam que o mercado de stablecoins pode chegar à casa dos trilhões de dólares até 2030, mas essas são projeções, não certezas. O que temos hoje é o início de uma disputa, com o euro dando seus primeiros passos num campo ainda esmagadoramente dominado pelo dólar. É uma tendência estrutural real, mas que está no começo da sua jornada.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, essa onda global de stablecoins traz uma percepção valiosa sobre onde o dinheiro está indo. O fato de gigantes financeiros do mundo inteiro estarem construindo, ao mesmo tempo, infraestrutura de dinheiro digital mostra que a tecnologia blockchain está sendo adotada como encanamento financeiro sério, muito além da especulação com o preço das moedas. É um voto de confiança estrutural na tecnologia, vindo justamente das instituições mais tradicionais.
A leitura da Formadores é que isso se conecta diretamente com o que já observamos sobre a liderança do Brasil e da América Latina na adoção de stablecoins. Enquanto na Europa a Revolut leva o euro digital ao grande público, no Brasil as stablecoins de dólar já são a forma dominante de uso do cripto, como mostramos na newsletter sobre a dolarização digital. Somos, de certa forma, um mercado à frente nessa curva de adoção prática. Ver o mundo desenvolvido correr atrás do que já é realidade por aqui reforça que essa é uma tendência global e duradoura, não um modismo passageiro.
A lição prática é entender que existe uma diferença fundamental entre “usar” e “investir”. As stablecoins são uma ferramenta de uso, para pagar, transferir e proteger valor da inflação, e não um investimento que se valoriza (afinal, elas são feitas para não sair de 1 dólar ou 1 euro). Confundir as duas coisas é um erro comum. Mas, como investidor, entender essa infraestrutura crescente ajuda a enxergar o valor de longo prazo de todo o ecossistema. E vale sempre a ressalva de responsabilidade: uma stablecoin é tão sólida quanto as reservas e o emissor por trás dela, então escolher stablecoins reguladas e transparentes, como as que seguem marcos como a MiCA, é parte de usar essa tecnologia com maturidade.
O que resume o tema: quando uma fintech de 80 milhões de clientes lança uma stablecoin de euro, e Japão e Coreia avançam na mesma direção, fica claro que o dinheiro digital deixou de ser “coisa de cripto” para virar disputa das maiores instituições financeiras do mundo. O euro entrou num jogo dominado pelo dólar, e o encanamento dos pagamentos globais está sendo reconstruído em blockchain. É uma tendência estrutural real, ainda que no começo da sua jornada. E o Brasil, que já adotou as stablecoins no dia a dia, está mais à frente nessa curva do que muita gente imagina.
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