1º de setembro de 2026 · Na newsletter anterior, contamos como o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, assustou o mercado com um discurso duro contra a inflação, sinalizando que os juros podem subir. Mas essa é só metade da história, e a outra metade é fascinante, porque revela uma disputa rara acontecendo bem no coração do poder financeiro dos Estados Unidos. Do outro lado do ringue está o Tesouro americano, comandado por Scott Bessent, que quer exatamente o oposto: juros baixos. E, para completar o enredo, há um terceiro jogador, o mais poderoso de todos, que está ignorando os dois: o mercado. Nos últimos dias, apesar de toda a intervenção do Tesouro para segurar as taxas, os juros dos títulos americanos subiram para a máxima em quase duas décadas. É um verdadeiro cabo de guerra em três pontas: o Tesouro puxando os juros para baixo, o Fed ameaçando puxá-los para cima, e o mercado, teimoso, empurrando-os para onde bem entende. Entender essa disputa não é apenas um exercício de economia, é a chave para compreender uma das forças mais profundas por trás da recente valorização do Bitcoin. Esta newsletter explica, em linguagem simples, quem está puxando cada ponta dessa corda, por que a intervenção do governo não está funcionando, e o que tudo isso significa para a tese do Bitcoin como proteção.
Tempo de leitura: ~7 min
Neste artigo
Juro de 10 anos
4,76%
a poucos passos da máxima desde 2007 · subindo apesar da intervenção do Tesouro para segurá-lo
Juro de 30 anos
5,25%
nova máxima de 19 meses · o mercado empurrando as taxas para cima, na contramão do desejo do governo
Juros da dívida (10 meses)
US$ 963 bi
o que o governo dos EUA já pagou só de juros da dívida no ano fiscal · por isso o Tesouro teme juros altos
Reunião do Fed
16 de setembro
a decisão de juros virou um “cara ou coroa” após o discurso do Warsh, com o mercado dividido
Os dois lados de Washington: Tesouro e Fed
Para entender o conflito, primeiro é preciso saber que existem dois órgãos diferentes cuidando do dinheiro nos Estados Unidos, com objetivos que, neste momento, se chocam. De um lado está o Federal Reserve (o Fed), o banco central, cuja missão é controlar a inflação. Sua principal ferramenta é a taxa básica de juros: quando a inflação sobe, o Fed tende a subir os juros para esfriar a economia. É o que o novo presidente, Kevin Warsh, sinalizou que pode fazer, ao dizer que ainda há “trabalho a fazer” contra a inflação.
Do outro lado está o Tesouro, o órgão que cuida das contas do governo, comandado pelo secretário Scott Bessent. O Tesouro tem uma dor de cabeça diferente: a dívida gigantesca do país, de mais de US$ 40 trilhões. Quando os juros sobem, o custo de rolar essa dívida dispara. Para se ter uma ideia, só nos primeiros dez meses do ano fiscal, o governo já gastou cerca de US$ 963 bilhões apenas pagando juros da dívida. Por isso, o interesse do Tesouro é o oposto do que o Fed ameaça fazer: ele quer os juros baixos, e vinha intervindo no mercado, recomprando títulos, para tentar segurá-los.
Temos, então, o cabo de guerra montado. O Fed sinaliza que pode subir os juros para combater a inflação; o Tesouro quer os juros baixos para conseguir pagar a conta da dívida. Publicamente, o Bessent tenta suavizar o atrito, dizendo que ele e o Warsh estão “na mesma página” e evitando comentar as decisões do Fed, para respeitar a independência do banco central. Mas as ações e os interesses de cada um apontam para direções opostas, e o mercado percebe isso com clareza.
O argumento do “choque de oferta”
O Bessent tem um argumento técnico interessante para defender por que o Fed não deveria subir os juros agora, e vale entendê-lo. Ele afirma que subir os juros em meio a um “choque de oferta” seria uma medida incomum e possivelmente equivocada. Mas o que é um choque de oferta?
Existem duas razões principais para os preços subirem. A primeira é a demanda aquecida demais: quando há dinheiro sobrando e todo mundo quer comprar, os preços sobem. Contra esse tipo de inflação, subir os juros funciona bem, porque esfria a demanda. A segunda razão é um problema na oferta: quando algo encarece a produção ou o transporte de bens, como uma guerra que dispara o preço do petróleo. Esse é o “choque de oferta”. E aqui está o ponto do Bessent: subir os juros não resolve um choque de oferta, porque o problema não é excesso de demanda. Aumentar os juros nesse caso só freia a economia sem atacar a verdadeira causa da inflação, podendo empurrar o país para uma desaceleração desnecessária.
A tese do Tesouro, portanto, é que a inflação atual vem em boa parte de fatores de oferta temporários, como a pressão nos preços de energia ligada ao conflito no Oriente Médio, e que ela deve passar por conta própria. Nesse raciocínio, o Fed estaria prestes a cometer um erro ao apertar os juros contra uma inflação que é passageira. É um debate econômico legítimo e sem resposta fácil: se o Bessent estiver certo e a inflação for temporária, o Fed erraria ao subir os juros; se ele estiver errado e a inflação for persistente, o Fed precisaria mesmo apertar. Ninguém sabe ao certo, e é essa incerteza que deixa o mercado tenso.
⚠️ Aviso importante: este conteúdo é educativo e descreve um debate econômico e político em andamento. A Formadores de Mercado não recomenda a compra ou venda de nenhum ativo. Criptoativos envolvem alto risco de perda.
O terceiro jogador: o mercado ignora os dois
Aqui entra a parte mais reveladora de toda a história, e o motivo pelo qual essa disputa se tornou tão importante. Enquanto o Tesouro puxa para um lado e o Fed ameaça puxar para o outro, existe um terceiro jogador que é, no fim das contas, o mais poderoso: o mercado de títulos, formado por milhões de investidores no mundo todo que compram e vendem a dívida americana. E esse mercado está, neste momento, ignorando o Tesouro.
Lembra que o Bessent vinha recomprando títulos para segurar os juros? Pois bem: passados cerca de doze dias dessa intervenção, o efeito foi o contrário do desejado. Os juros dos títulos americanos, em vez de cair, subiram para a máxima em quase duas décadas. O rendimento do título de 10 anos chegou perto de 4,76%, a poucos passos do maior nível desde 2007, e o de 30 anos alcançou 5,25%, uma máxima de 19 meses. Como resumiu uma análise financeira, o mercado de títulos parece estar “ignorando completamente” o Tesouro dos Estados Unidos.
Por que isso acontece? Porque o mercado tem suas próprias preocupações, e elas são maiores do que a intervenção do Tesouro. Os investidores olham para a dívida colossal dos Estados Unidos, para os déficits que não param de crescer e para a inflação ainda alta, e concluem que emprestar dinheiro ao governo americano por dez ou trinta anos exige uma taxa maior para compensar o risco. Em outras palavras, o mercado está dizendo, com o próprio dinheiro, que não acredita que o governo consiga manter os juros baixos artificialmente por muito tempo. É a força bruta do mercado se impondo sobre a vontade dos governantes, e essa é uma mensagem poderosa.
Onde o Bitcoin entra nessa história
Toda essa disputa pode parecer distante do cripto, mas na verdade ela é uma das forças mais profundas por trás da valorização recente do Bitcoin. A conexão está no que essa tensão revela: uma fragilidade fiscal do maior governo do mundo. Vamos ver os cenários possíveis, porque todos eles, curiosamente, reforçam a mesma tese.
Os caminhos da disputa, e por que todos levam ao Bitcoin
| Se acontecer isto… | …a lógica leva ao Bitcoin porque |
|---|---|
| O Tesouro segura os juros baixos | Isso corrói o valor do dinheiro (repressão financeira), empurrando quem poupa para ativos escassos |
| O mercado vence e os juros disparam | Isso expõe a fragilidade fiscal dos EUA, o que também leva investidores a buscar proteção fora do sistema |
| O governo imprime mais para pagar a conta | Mais dinheiro na economia tende a desvalorizar a moeda, reforçando o apelo de um ativo de oferta limitada |
Repare no padrão, que já exploramos na newsletter sobre repressão financeira: os diferentes desfechos dessa disputa levam, por caminhos distintos, à mesma conclusão. Seja pela corrosão do dinheiro (se o governo conseguir segurar os juros), seja pela exposição da fragilidade fiscal (se o mercado vencer e os juros dispararem), a lógica de buscar um ativo escasso, fora do controle de qualquer governo, se fortalece. É por isso que o Bitcoin, assim como o ouro, tem se valorizado em meio a essa incerteza. Ele se comporta como um “porto seguro” para quem desconfia da capacidade dos governos de administrar suas dívidas sem desvalorizar o dinheiro.
Isso não significa, é claro, que o Bitcoin vá subir em linha reta. Como vimos na newsletter anterior, ele reage no curto prazo a sustos, como o discurso duro do Warsh. Mas a força de fundo, estrutural, é essa incerteza fiscal que a disputa dos juros escancara. O cabo de guerra em Washington é, no fundo, um anúncio de que o dinheiro tradicional está sob pressão, e é exatamente essa pressão que dá sentido de longo prazo à existência do Bitcoin.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, essa disputa toda oferece uma lição de contexto muito valiosa. Nós, brasileiros, temos uma longa experiência com governos endividados, inflação e a sensação de ver o dinheiro perder valor. O que está acontecendo nos Estados Unidos é, guardadas as proporções, uma versão dessa mesma dinâmica, agora na maior economia do mundo. Entender isso ajuda a enxergar que a busca por proteção contra a desvalorização do dinheiro não é uma peculiaridade de países emergentes, é uma preocupação que chegou ao centro do sistema financeiro global.
A leitura da Formadores é que essa tensão entre o Tesouro, o Fed e o mercado é a face mais recente da tese de fundo que viemos construindo há semanas: a de que existe uma demanda estrutural, crescente e global, por ativos que escapem do controle e da desvalorização promovidos pelos governos. O Bitcoin, com sua oferta limitada e sua independência de qualquer banco central, é o candidato mais novo a cumprir esse papel, ao lado do ouro. A disputa dos juros não é uma ameaça a essa tese, é uma confirmação dela.
Na prática, o que fazer com essa informação não é tentar adivinhar se o Fed vai subir os juros na próxima reunião, o que seria pura especulação de curto prazo. É entender a força de fundo. Quem compreende que existe uma pressão estrutural sobre o dinheiro tradicional consegue enxergar o Bitcoin não como uma aposta especulativa, mas como uma possível proteção de longo prazo dentro de uma carteira diversificada e coerente com o seu perfil. O ruído do dia a dia (a reunião do Fed, o discurso deste ou daquele dirigente) vai e vem. A tendência de fundo, a de governos lutando com dívidas impagáveis, é o que realmente importa para quem investe pensando em anos. E é essa a lente que transforma manchetes confusas em entendimento sólido.
O que resume o tema: existe um cabo de guerra em Washington. O Tesouro quer os juros baixos para pagar a conta da dívida, o Fed ameaça subi-los para combater a inflação, e o mercado, ignorando os dois, empurra as taxas para a máxima em quase vinte anos. Essa disputa escancara uma verdade incômoda: a dívida dos Estados Unidos virou grande demais para ser administrada sem tensões, e o dinheiro tradicional está sob pressão. Nesse cenário, um ativo escasso e independente como o Bitcoin ganha um papel que vai além da especulação. Não importa quem vença o cabo de guerra, a lógica de buscar proteção na escassez sai fortalecida. E é isso que, para quem pensa em anos, dá sentido à jornada.
✦ Diagnóstico Gratuito ✦
Qual é o seu perfil de
investidor em cripto?
Entender as forças macro por trás do mercado é o que separa a especulação da convicção de longo prazo. Descubra seu perfil de investidor em menos de 3 minutos.
Diagnóstico gratuito →Leva menos de 3 minutos · 100% gratuito